segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

Aflições que criamos

Aflições que criamos

Vamos meditar sobre as aflições que criamos. Há muito tempo atrás dispúnhamos da candeia, da lamparina. Contemplávamos as noites maravilhosas com o brilho das estrelas, havia o luar. Hoje, com a eletricidade, temos as casas, as cidades iluminadas. Queremos uma luz feérica, mas, se porventura, a energia for interrompida – ainda que por alguns minutos – ficamos aflitos e nos voltamos contra a empresa fornecedora de eletricidade, contra todos os que consideramos responsáveis, criando aflição geral.
Antes, para nossas viagens, utilizávamos veículos de tração animal ou fazíamos longas caminhadas a pé em nossas visitas e piqueniques; hoje, temos nosso carro particular ou transporte coletivo confortável. Mas, se a velocidade máxima permitida for como é na maioria das estradas – 80km horários – ficamos desesperados por ter que observá-la, criando grande aflição.
Se estivermos numa fila aguardando a nossa vez, e uma senhora idosa, um doente ou uma gestante, for conduzido ao atendimento, por direito natural de antecipação a que faz jus, nos rebelamos, clamando com impaciência sobre nossos direitos, sem consideração alguma pelo nosso próximo, criando aflição entre os presentes.
Nos dias atuais a tecnologia avançou: temos possantes tratores para cultivar o solo, mas, se não pudermos comprá-los, clamamos com aflição, esquecidos de que podemos cultivar a terra com o arado de tração animal ou até com as mãos.
Agora dispomos de belíssimas geladeiras, mas se não pudermos adquiri-las, caímos na aflição: - Ah! Eu não posso comprar uma geladeira!
Antes conservávamos as verduras em bacias de água fresca e, com elas, preparávamos as saladas para as refeições.
Fala-se tanto no problema da fome, em nossos dias, que criamos vasta onda de aflições sobre a Terra. No entanto, morre muito mais gente por excesso de alimentação do que de fome, criando gordura no coração – e, em conseqüência, vêm os enfartes...
Esquecem-se as criaturas de que, muitas vezes, um pedaço de pão, guardado até por dias, pode satisfazer plenamente a fome; alguns pães podem alimentar toda uma família.
Busca-se hoje “status”. Eu nem sabia o significado dessa palavra; foi uma amiga que me explicou. Em se tratando de sapatos, desejamos 70 pares – ainda que não tenhamos 35 pares de pés, pois apenas usamos um par. Achamos pouco de 37 camisas.
Abrimos contas bancárias, fazemos depósitos na poupança para as crianças. Preocupamo-nos em saber qual banco cobra mais juros. É uma preocupação sem fim.
Queremos casas confortáveis, com muito luxo, onde haja lugar para tudo, menos para os velhos, porque não toleramos os doentes, os nervosos, nem temos tempo para eles. Assim é que os enviamos para clínicas de repouso ou hospitais geriátricos. Os velhinhos deveriam estar conosco, orando todos os dias pelas manhãs, recebendo nosso carinho.
Depois surgem os remorsos, o complexo de culpa, e não há psiquiatra na Terra capaz de nos atender. Quantas aflições nós criamos! Mas, desculpem-me pelo que estou falando, vocês me perdoem; esta assembléia, que me ouve, vai me perdoar. Eu estou na condição daquele palhaço que falou muito e pediu perdão, porque estava falando para si mesmo.

Discurso de Francisco Cândido Xavier, trechos extraídos do livro “Inesquecível Chico” – De Romeu Grisi e Gerson Sestini - editora GEEM.

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