domingo, 4 de maio de 2014

Como o espiritismo era visto no século XIX

 

ABRIL 2014 Postado por liliancomunica

Fonte: http://www.liliancomunica.com.br/site/index.php/imprensa/como-o-espiritismo-era-visto-no-seculo-xix/

Com mais de 15 mil exemplares vendidos em duas semanas, novo livro de Rafael Figueiredo aborda os princípios da doutrina espírita em Londres

Em seu novo romance, Rafael Figueiredo, inspirado por Frei Felipe, conduz o leitor a vivenciar os primórdios do desenvolvimento do Espiritismo, no final do século XIX. Os protagonistas são o médico Edouard e sua esposa Elizabeth, que, em contato com eventos sobrenaturais, encontram evidências de que as manifestações dos espíritos não eram apenas fruto de cérebros fracos, como ditava o preconceito científico.

Numa sociedade britânica dominada basicamente pelo protestantismo, os estudos sobre a vida após a morte apresentavam para o mundo novas perspectivas sobre a existência humana. Porém guerras e revoluções modificam o roteiro da história, levando os personagens a experiências até então inexplicáveis.

O leitor pode identificar situações de preconceito vindo tanto de filósofos positivistas quanto de religiosos, que acreditavam que o espiritismo era uma agressão contra seus ideais e roubaria fieis de suas igrejas. Além das cenas do embate filosófico-religioso, o livro conduz ao contexto da Primeira Guerra Mundial, a qual o protagonista vivenciou e serviu como médico, demonstrando a importância do evento que modificou o futuro da Doutrina.

Assim, como em Do Século das Luzes também publicado pela editora Boa Nova, O Testemunho dos sábios é capaz de emergir no passado apresentando detalhes da sociedade de Londres do século XIX, durante a Revolução Industrial, em que a pesquisa científica e as economias efervesciam a metrópole – considerada à época a capital do mundo. Em menos de duas semanas de lançamento, o livro já vendeu mais de 15 mil exemplares.

domingo, 23 de março de 2014

DOAÇÃO E TRANSPLANTE DE ÓRGÃOS

 

Texto de 2005 original e ainda não publicado, dando continuidade as nossas publicações de antigos ensaios psicografados.

DOAÇÃO E TRANSPLANTE DE ÓRGÃOS

AMAI, POIS, VOSSA ALMA, MAS CUIDAI TAMBÉM DO CORPO, INSTRUMENTO DA ALMA; DESCONHECER AS NECESSIDADES QUE SÃO INDICADAS PELA PRÓPRIA NATUREZA, É DESCONHECER A LEI DE DEUS.

(GEORGES. O Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap XVII, item 11).

Se regressarmos algum tempo no passado iremos aprender que constatávamos o óbito de uma pessoa colocando uma bacia com água sobre seu abdômen observando se a água se movimentava, sinal de que havia respiração. Noutras vezes dispúnhamos de pequenos espelhos ou pequenas peças de vidro em frente às narinas do provável falecido para observar se ocorria embaçar pelo acúmulo de gotículas de água pelo processo respiratório. Esses métodos dependiam de uma avaliação bastante imprecisa que perdurava até surgirem os primeiros sinais de putrefação do corpo, ou até o limite da paciência de quem esperava o resultado da confirmação da morte. Eram comuns os casos em que se apressavam os laudos em função de interesses outros, como em caso de heranças, por exemplo. Acontece que estes diagnósticos não davam conta de todas as possibilidades que uma pessoa pode apresentar na diminuição de suas funções vitais, como os casos da catalepsia e letargia, além de outras situações.

No ano de 1850 um médico francês apresentou um protocolo para constatação do óbito que incluía parada respiratória, parada cardíaca, cessação da circulação e ausência de pulso para constatação da morte de alguém. Até então considerávamos o coração como sendo o órgão primeiro na hierarquia funcional do organismo. Já no século XX iniciam-se estudos apontando não mais o coração, mas o encéfalo (composto pelo cérebro, cerebelo e tronco encefálico) como órgão principal no comando orgânico de nosso corpo.

Havia se constatado que uma pessoa guilhotinada mesmo tendo sua cabeça decepada mantinha seus batimentos cardíacos por mais algum tempo, variando esse tempo de indivíduo para indivíduo. Compreendia-se que uma pessoa não poderia voltar à vida sem sua cabeça, mas se o coração ainda batia poderíamos ou não considerar o óbito? Descortinou-se assim a função primordial do encéfalo comandando o funcionamento orgânico.

Em 1968, em uma conferência realizada na Austrália, questionou-se o que deveria então ser adotado como o conceito de morte que padronizaria os laudos médicos por todo o mundo. A resolução acordada tratava a morte como sendo a cessação irreversível das funções encefálicas. Originava-se o conceito de morte encefálica.

Conforme a lei brasileira homologada em 1997 todos somos doadores de órgãos a menos que nos manifestemos contrariamente. Ao ser diagnosticada a paralisação do funcionamento do encéfalo existe a possibilidade da extração dos órgãos aproveitáveis para possíveis transplantes. A morte apresenta-se como um processo gradual, o que permite a utilização de órgãos que ainda apresentam vida útil no caso de um transplante. Sendo o encéfalo o primeiro mecanismos do corpo a parar de funcionar torna-se possível à captação dos demais órgãos que continuam a funcionar automaticamente por mais certo período de tempo a variar de órgão para órgão. Ao todo, nos dias atuais, apresentamos 62 partes transplantáveis em nosso corpo, o que permite uma ampla possibilidade de doação no intuito de melhorar a qualidade de vida de indivíduos enfermos.

Ao contrário do temor que muitos apresentam, a possibilidade de existir uma aceleração do processo obituário é bastante remota. Existe todo um protocolo médico que dificulta qualquer intervenção interesseira no sentido de favorecer este ou aquele indivíduo acelerando a morte para extração dos órgãos. Durante o desenrolar do diagnóstico existe também a possibilidade de um médico de confiança da família participar das avaliações.

Tendo feito esta rápida explanação sobre aspectos clínicos do diagnóstico que permite a equipe médica possibilidade de extração de órgãos para transplante adentramos nos aspectos pouco explorados que se relacionam à espiritualidade. Dizem-nos os espíritos na codificação, “Quanto maior a identificação do espírito com a matéria, maior o sofrimento para a separação. A atividade moral e intelectual e a elevação dos pensamentos acionam o início da libertação, mesmo durante a vida do corpo.” (LE, Q.155).

A falta de preparo para o desencarne é fator principal nas complicações no momento extremo de transição entre as dimensões. Imaginemos a situação de um paciente terminal, internado em uma UTI hospitalar, sob efeito de forte anestésico. Durante este período acaba por desencarnar e desperta gradualmente na espiritualidade, ainda sob efeito dos tranqüilizantes por tratar-se de um espírito em condições normais e de pouca elevação moral, como a imensa maioria de nós. Nessa confusão desperta ele sem perceber a presença de familiares e funcionários encarnados conhecidos que o atendiam. Talvez ainda instalado em ambiente muito semelhante ao hospital para evitar o brusco choque com a mudança de esfera. Somemos a tudo isso a desconfiança natural de não conseguir compreender as diferentes sensações que apresenta, como em alguns casos, uma rápida melhora dos sintomas que o levaram ao óbito no plano físico. Com toda essa desconfiança, ainda escuta alguém afirmar que ele está morto.

Esta imensa confusão mental colhe praticamente a todos nós, mesmo os que imaginam possuir conhecimentos do mundo espiritual. A possibilidade de se ver transferido à outra dimensão, que mesmo sendo diferente da esfera física, apresenta para aqueles que lá vivem as mesmas impressões de materialidade, é de lenta adaptação.

Por tudo isso é difícil explicar a nova situação para alguém que imaginava que a morte lhe transformaria por completo. Vêem-se ainda de posse de um corpo, mais ou menos denso de acordo com a sua ligação com a materialidade. Agora acrescentemos a toda essa confusão mental a possibilidade desses espíritos recém desencarnados presenciarem a extração de seus órgãos para doação. O atordoamento é tamanho que muitos nem mesmos percebem que continuam a gritar e protestar mesmo se falte um órgão que seria imprescindível à vida caso ainda habitassem no corpo físico.

Fica claro que existe uma boa possibilidade de ocorrer à extração dos órgãos em um corpo onde ainda haja um espírito ligado. Essa relação depende da capacidade de entendimento do desencarnante e igualmente de seus méritos para que possa ser auxiliado com presteza. Existem casos de captação de órgãos em pessoas que nem mesmos conheciam a possibilidade deste tipo de interferência cirúrgica. A falta de informação é um fator de extrema importância em casos assim.

Importante se faz que compreendamos que somos seres que sobrepujamos o corpo físico. Somos espíritos que senhoreamos nosso mundo celular na organização visando o perfeito funcionamento corporal. Este modelo organizacional é dado pelo espírito por intermédio do seu envoltório, o perispírito. O corpo orgânico libera uma substância que pode ser fotografada pela câmara de Kirlian, a qual denominamos de ectoplasma e que participa da formação do duplo etérico, que por sua vez faz a conexão entre o corpo do espírito e o corpo material. Cessando a produção deste ectoplasma o espírito perde a possibilidade de manter a ligação com o corpo físico ocorrendo a paralisação orgânica do corpo físico o que caracteriza o início do desencarne.

Toda a doença de graves proporções emerge de dentro para fora. È criação do espírito que por um processo de adaptação íntima mal resolvido macula sua função organizacional celular repercutindo diretamente sobre o perispírito e por conseqüência na produção do ectoplasma que acaba por repercutir no veículo corporal onde instala-se uma enfermidade. Por exemplo, caso cortássemos um dedo com uma faca dificilmente nos apresentaríamos com este corte na espiritualidade porque a origem do problema foi externa e nesse caso não teria afetado a estrutura perispiritual. No caso deste mesmo corte ter por algum motivo nos marcado emocionalmente de maneira muito forte, existiria, então, uma grande possibilidade de transferirmos mentalmente esta marca para nosso perispírito, por que teria influenciado substancialmente o responsável pela gênese das doenças, o próprio espírito.

Constatando que a origem da imensa maioria das enfermidades dá-se no espírito fica fácil afirmar que a sua cura, ou ainda, o efeito paliativo depende em grande parte do entendimento e da capacidade, que por conseqüência, apresentamos, de buscar a harmonização íntima.

Devido a todas essas dificuldades não seria nenhum exagero afirmar que encontraríamos uma grande quantidade de espíritos correndo atrás de seus órgãos após a captação dos mesmos visando transplante. Em muitos casos de auxílio espiritual esses companheiros desinformados passam por verdadeiras encenações hipnóticas com o objetivo de lhes alterar o padrão mental na intenção de que se vejam novamente portadores de seus órgãos perispirituais. Cirurgias na espiritualidade fornecem esse apaziguamento aos desencarnados que se entendem defeituosos pela ausência de algum órgão que viram ser extraído do corpo material. Seria o caso dos hipocondríacos espirituais que mentalmente produzem os efeitos que lhes repercutem na forma de enfermidades.

Poderíamos dizer que todo o problema está na mente, no espírito, e que para a sua solução necessitamos da conscientização da real causa de seu problema e do esclarecimento devido para encontrar o ponto de equilíbrio possível.

Sabemos ao abordar a questão dos transplantes que existem diversos fatores que precisam ser observados para a perfeita efetivação da operação. O fator sangüíneo e a utilização de imunodepressores que diminuem a possibilidade de rejeição são aspectos importantes do ponto de vista clínico, mas muitos são igualmente os aspectos espirituais que envolvem os méritos de um transplante.

Mesmo não possuindo este conhecimento os médicos operam estreitamente ligados a equipes médicas na espiritualidade. Como abordamos anteriormente a imensa maioria das doenças tem origem na alma e, portanto, é nela que precisa haver a intervenção para objetivar-se a cura. Tratar somente do corpo deixando a matriz enferma no perispírito permite o recrudescimento da mesma doença em momento posterior. A cura ou a solução parcial do problema do encarnado passa por diferentes fatores que tentaremos resumidamente abordar.

A condição moral dos envolvidos – Como enfatizamos é o espírito que organiza a funcionalidade celular de seu envoltório. Sabemos que somos cada um de nós um mundo complexo e distinto e que, portanto, funcionamos singularmente. Estes diferentes padrões de funcionamento estão transcritos igualmente no corpo físico, inclusive no órgão que será transplantado. A medicina terrena ignorando esta diferença que pode tornar-se causa de rejeição fica sujeita aos méritos do paciente e da qualidade moral do doador para receber o devido aporte da espiritualidade na conjunção destes diferentes padrões vibratórios visando o perfeito funcionamento do órgão em um novo corpo.

A vitalidade do órgão – Cada indivíduo está sob uma programação reencarnatória exclusiva, o tempo que deveria habitar encarnado e a vitalidade que seus órgãos deveriam apresentar no cumprimento desta programação é outro fator que necessita da participação espiritual para a revitalização no caso dos órgãos a serem reutilizados por outras pessoas em outros corpos com programações distintas.

Prontuário do receptor – A referência a esta mesma programação reencarnatória, se é permitido a cura do paciente na enfermidade em questão. O próprio espírito pode inconsciente concorrer para a falência do órgão devido a uma necessidade expiatória que um processo de culpa lhe exige perante a consciência, o ressarcimento moral inconscientemente concorre para efetivar.

A rejeição mental do paciente – Os casos que infelizmente existem de rejeição espontânea por parte do espírito receptor que não aceita um órgão que provenha de pessoa de raça, cultura ou mesmo religião diferente da que aceita. Sofre devido ao seu próprio preconceito.

As emanações espirituais / magnéticas da equipe médica – É facilmente perceptível o odor característico que fica impregnado na pele e no organismo das pessoas que fumam. Da mesma forma toxinas espirituais podem existir por efeito da má conduta daqueles que participam do procedimento cirúrgico. Abuso do álcool, do fumo, os desregramentos de conduta, aqueles que trabalham no interior de uma pessoa deve levar em consideração que a assepsia material não tem efeito nas questões espirituais. Para aqueles que duvidam da existência de bactérias espirituais lembremos que as bactérias que observamos fisicamente eram tidas como imaginação antes de inventarmos o microscópio. Se existe uma bactéria física existe igualmente um principio espiritual que a organiza.

A conscientização do doador – Fator diretamente relacionado às obsessões. Essas obsessões que podem ocorrer nos casos de transplante na maioria das vezes não estão relacionadas a vinganças e sim a desinformação. Ao se verem surrupiados de seus órgãos, por falta de conhecimento da realidade espiritual, crêem-se dependentes dos mesmos órgãos para continuarem vivos, na maioria dos casos não tendo consciência que desencarnaram. Por conseqüência natural exigem e fazem todo o possível para reaver suas partes extraídas, seguidamente partindo junto com os órgãos transplantados.

Todos somos espíritos comandando corpos, momentaneamente atrelados aos mesmos, portanto somos igualmente passíveis de influenciação espiritual. Devido a presença espiritual do acompanhante do órgão (seu ex-proprietário) existe uma troca fluídica que repercute por intermédio do ectoplasma do duplo etérico no corpo físico, as sensações de ausência do órgão que a mente do desencarnado produz tendem a fazer efeito sobre o paciente recém transplantado. Mesmo com a ocorrência tranqüila do processo cirúrgico o organismo do paciente pode apresentar rejeição por influência direta da obsessão “não-intencional”. Neste aspecto de troca mediúnica por intermédio dos fluidos podemos enquadrar os relatos de apresentação parcial das memórias do doador que nos acompanha e interage conosco. São comuns os casos de rejeição onde não existem as constatações de falha médica e que surge de complicações espirituais.

De todo este nosso relato, das possibilidades de complicação, deduz-se que o Espiritismo é contra o transplante de órgãos?

De forma alguma, jamais poderemos ser contra os meios empregados na intenção de aliviar a dor ou buscar prolongar saudavelmente uma vida. Estimulamos sim é a aquisição de conhecimento de causa para atuarmos com maiores recursos se realmente desejamos auxiliar ao próximo.

Sabemos que nada acontece por acaso, que em tudo existe a sabedoria de Deus trabalhando de forma que por vezes não percebemos, mas que visa sempre nosso bem estar. Somos sabedores que as enfermidades têm, em sua maioria, origem em nós mesmos e que somos igualmente os maiores responsáveis pela busca do equilíbrio se o almejamos.

Para sabermos se é válido ou não a doação de órgãos basta que invertamos os papéis. Como nós nos sentiríamos se estivéssemos na necessidade de fazer uma hemodiálise de 2 horas diárias 3 vezes por semana para sobrevivermos e aguardando longamente na fila de espera por um transplante sem saber se o receptor surgirá a tempo? E se nós dependêssemos desse transplante?

De que nos servirá um corpo que a terra há de engolir? Do pó ao pó. O corpo precisa ser respeitado e prova maior desse respeito é possibilitar que partes do mesmo sejam úteis a outros que podem precisar depois que estivermos libertos do mesmo. Porque não doarmos o que para nós perdeu a utilidade?

É necessária a nossa conscientização com relação ao processo de doação para mais tarde não sermos também colhidos pelas complicações originadas na falta de informação. Estejamos em constante preparo para o desencarne, a troca de morada. Ao possuirmos a vontade sincera de doar muitas das complicações já estarão superadas, a outra parte depende do receptor do órgão. A doação, que imprescinde do esclarecimento, constitui-se em elevado desprendimento material e um belo gesto de caridade quando praticada espontaneamente.

François

4 de junho de 2005

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

UM RELATO INESPERADO

De início, sem nenhuma ideia pré-concebida fui assaltado por um ambiente diferente que se mostrava persistente, com sons, cores e fortes impressões emocionais. As balas de canhão singravam os ares caindo sobre as rústicas construções de madeira, não sei onde estava, nem que ano era aquele, mas me parece que soldados atacavam uma pequena fortificação em ambiente descampado. Certamente estamos entre os séculos XVI e XVII, pois as armas e roupas eram facilmente identificáveis.

Vamos ao relato:

Quem eram aquelas pessoas que lançavam suas armas sobre nós. Fomos pegos de surpresa, levantei-me ainda atordoado. E foi por pouco, pois bastou ultrapassar o umbral da porta de nosso alojamento e tudo desmoronou com o peso da pesada bala de canhão que caia dos céus. Sem camisa, ainda tentando prender a espada a cintura corri para o pátio procurando compreender o que acontecia. Vi os homens correndo atordoados assim como eu, sem saber o que estava acontecendo. Alguns gritavam:

- Estamos sob ataque, as armas, as armas!!!

Logo as primeiras fumaças surgiam, e nossos alojamentos incendiavam rapidamente. O que acontecia? Quem nós atacava? Não tínhamos a menor ideia. Fora um fim inevitável, não havia como revidar. Pegos de surpresa caímos sem capacidade de responder ao ataque. Os sobreviventes foram facilmente feito prisioneiros. Alguns executados, outros que poderiam ser uteis serviam de guia e permaneciam vivos enquanto mantivessem a utilidade. Os nativos estavam com eles. Raça vil, diziam os homens, pois mudavam de lado, e faziam alianças com muitos ao mesmo tempo, tudo dependia da situação mais vantajosa. A ilusão do conquistador, nós que ali estávamos como invasores não éramos tão vis como esses nativos? Não havíamos os enganado e abusado para receber vantagens igualmente?

Isso não importava mais, estava tudo acabado, ao menos para mim. Meus anos de serviço militar a coroa havia felizmente terminado. Estava cansado de viver entre selvagens e mosquitos, sem o menor conforto. Isso não era a vida de aventuras e triunfos que nos haviam prometido. Ah... juventude e suas ilusões, como somos facilmente convencidos a assumir posições que mais tarde se mostram desfavoráveis.

Minha situação depois daquele ataque? Não sei muito bem o que se passou, estive de volta a Europa, revi minha cidade, mas completamente transformada, irreconhecível na verdade. Não foi fácil. Acreditei ter enlouquecido, talvez houvesse contraído alguma doença naquele mundo primitivo. Não fora homem letrado, mal sabia ler e escrever, o que por pouco que fosse me permitiu tomar posição de oficial de pequena patente no exercito de sua majestade.

Estive vagando, em outras terras, com outras formas, fui soldado, fui mendigo, tudo se confunde em minhas lembranças. Não sei exatamente porque me trazem até aqui, qual a intenção de me fazer falar dessa maneira. Recordações que me pareciam perdidas para sempre ressurgem e me atormentam, processo desagradável e inoportuno. Não quero lembrar, não quero saber sobre meu passado. Deixe-me esquecer! Deixe-me esquecer! Que tormenta se abate sobre o homem que não o permite esconder de si mesmo os resquícios negros que guarda e carrega em sua própria alma.

Minha cabeça dói, não a dor física de um pequeno mal, nem tão pouco a dor passageira de uma pancada fatal, dói pelo tormento do passado que ressurge afrontando minha tranquilidade, me perturbando sem paz. Eu que imaginava que todos os meus atos reprováveis haviam sido esquecidos juntamente com minha memória confusa.

Vejo que não, vejo que tudo ressurge, e lamento profundamente o dia que aqui pus meus pés. Neste solo ignoto, terra de minha perdição, que somente mal fez eclodir de minha alma. Que importa os infortúnios de selvagens? Que importa as mortes e abusos? Diziam que estes seres primitivos não tinham almas, haviam sido concebidos por Deus para servir o homem civilizado. Haviam nos garantido isso, era a opinião da Igreja! Não podem me inculpar se errei sob a tutela dos padres.

Esses vermes de batina. Classe de covardes hipócritas. Valiam-se de sua influência moral para enredar os ignorantes em suas armadilhas. Não eram melhores do que os soldados, mais mal do que nós faziam eles com suas tramas ardis.

O que mais querem que eu fale? Deixem-me em paz com minha insignificância! Já não pago o suficiente com minha indigência pelas ruas? Querem também minha alma, pois de mim já retiraram o orgulho e a mínima condição de subsistir. Quem são vocês monstros mascarados? Justiceiros dos infernos que vieram atormentar minha alma? Deixem-me em paz, deixem-me em paz!!!!

O espírito caiu em lágrimas. Não estava arrependido de nada. Enrodilhado em uma complexa trama de vários séculos, precisava trazer a tona alguns episódios do passado para dar prosseguimento ao seu processo de amadurecimento íntimo. Estamos ante um quadro comum na história do Brasil colonial, onde as monarquias europeias aqui disputavam as riquezas, explorando com amplo apoio da Igreja a vida nativa, usufruindo da vida do índio e, posteriormente, de negros africanos. Entretanto, não se faz aqui o julgamento de caso, pois não há inocentes nem culpados, se esses vários espíritos continuam vinculados a essa fantástica trama é porque encontraram motivações particulares para assim fazer. É o quadro típico da vingança que se arrasta por gerações, onde a vítima de um dia vira algoz no dia seguinte. O que fazer com esses irmãos? Rezar e esperar que o tempo cumpra sua missão. Haverá um dia em que recobrarão os sentidos e poderão ver a vida sem as amarras do egoísmo, e somente então estarão prontos para recordar o passado e amadurecer com o esforço para construir o próprio amadurecimento moral.

25/12/2013

domingo, 15 de dezembro de 2013

ENTRE MÉDIUNS: NOVAS FRONTEIRAS DA PESQUISA MEDIÚNICA

ENTRE MÉDIUNS: NOVAS FRONTEIRAS DA PESQUISA MEDIÚNICA

Julie Beischel, PhD

Acabei de ler o livro "Among Mediuns: a Scientist's Quest for Anwers" (Entre Médiuns: Uma Busca Científica por Respostas", escrito pela Doutora Julie Beischel, doutora em Farmacologia e Toxicologia na Universidade do Arizona - EUA. O livro foi publicado apenas como e-book, em língua inglesa, e pode ser facilmente adquirido no site da Amazon, e custou apenas R$ 10,15 (dez reais e quinze centavos!)

É um relato, quase uma conversa que ela faz com o leitor, apresentando sua trajetória e as principais linhas de pesquisa com médiuns realizadas no Windbridge Institute, organização que ela fundou com outros pesquisadores para dedicar-se ao entendimento da mediunidade.

Minha leitura carrega sempre alguns olhares: a do professor-pesquisador, a do espírita, a do médium, a do humanista. Posso não concordar com tudo o que ela pensa e diz, mas saí muito favoravelmente impressionado com o trabalho dela.
Beischel dividiu as pesquisas em três grandes programas: o programa de pesquisas de informação (que informações trazem as mensagens mediúnicas?), o programa de pesquisas de operação (o que sentem e vivenciam, como modificam os organismos e qual é a psicologia dos médiuns durante o transe?) e o programa de pesquisas de aplicação (uso da mediunidade no tratamento do luto/melancolia, no apoio às investigações policiais, entre outros).

Do ponto de vista metodológico, chama a atenção a inteligência do design experimental usado nas pesquisas. Ao criar instâncias entre o médium e o consulente, além de nunca permitir o contato direto destes, ela conseguiu fazer avançar um tema que se encontrava "travado" desde a pesquisa de Rhine e as oposições dos céticos, e inovou ao desenvolver métodos para verificar a qualidade das informações fornecidas pelos médiuns, praticamente anulando hipóteses como cold readings e outras usadas para justificar os acertos realizados por eles.

Um dos capítulos que me emocionou foi o das aplicações, especialmente quando ela fala do luto/melancolia. Julie cita alguns casos de pessoas que reescreveram seu script de vida após receberem uma comunicação mediúnica de afetos que já se foram. Ela diz que se a indústria farmacêutica tivesse um remédio de efeito tão imediato sobre o luto, seu inventor já teria ficado rico e notório.
O capítulo das pesquisas fenomenológicas, fisiológicas e psicológicas da mediunidade também é um primor. Ela se refere aos estudos de personalidade dos médiuns (na amostra dela, das médiuns), usando o MTBI (Inventário de Tipos Psicológicos Myers-Briggs), por exemplo, que classifica as pessoas segundo a proposta de tipos psicológicos de Jung. 83% dos médiuns foram classificados com a díade de tipos intuição-sentimento.
Este é um livro cuja tradução faria sucesso e causaria alguma polêmica em nosso meio. Quem sabe não conseguimos autorização da fundadora do Windbridge Institute para traduzi-lo para o português?

Fonte:  Jader Sampaio, em http://espiritismocomentado.blogspot.com.br/

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Porque os livros espíritas andam tão ruins?

A literatura espírita tem feito despontar alguns questionamentos muito oportunos entre os companheiros espíritas mais lúcidos, que realmente aprofundam as reflexões sem a intenção de apenas criticar (destruir) algo. Um dos questionamentos mais frequentes é com relação a qualidade da escrita dos espíritos, e aqui começa a confusão.

Precisamos em primeiro lugar compreender que nem todo espírito é espírita, diriamos mais, apesar de desencarnados a minoria desses espíritos professa os conceitos e enunciados defendidos pela doutrina de Allan Kardec. Um número um pouco maior se alinha com os conceitos espiritualistas, que são mais amplos, mas a imensa maioria dos espíritos não é espírita, continuam seguindo as inclinações que possuiam enquanto encarnados. Desfeito esse primeiro equívoco, que visa estimular o leitor a reconhecer, ou procurar meios de fazê-lo, o livro espírito através de seu conteúdo, podemos dar continuidade a nossa reflexão.

Uma segunda questão, de análise um pouco mais complexa, é a questão da autoria espiritual. Como é possível que famosos escritores do passado tenham desaprendido a escrever? Porque a qualidade das narrativas, por vezes, tende a níveis pífios quanto a construção dos personagens, descrições de ambientes, estados psicológicos, etc? Será que esses autores espirituais desaprenderam a escrever? Essas indagações nos fazem refletir sobre outras questões, não menos complexas. Essa é a grande questão do Espiritismo, não afirmar verdade, mas provocar a reflexão, análisar o contexto dos fatos.

Um espírito, que quando encarnado fosse tido por um erudito no campo das letras é fácilmente reconhecido por seus fãs através da análise de suas características de escrita. Esse é um primeiro ponto que deve ser levado em conta. Temos evidências nesse sentido analisando a obra? O espírito desencarnado ele não iria desapreender a escrever, pode haver uma mudança de estilo, como acontece tantas vezes entre escritores e pintores, que passam por novas fases de inspiração e temas. Isso é perfeitamente aceitável, o seria em vida, porque não em morte, já que a vida prossegue seu curso do lado de lá? Porém, como explicar que espíritos conhecidos no meio espírita, escrevam com diferentes intermediários e não consigamos encontrar essas tais características literárias? E pior ainda, as vezes, os médiuns sabedores disso ainda justificam essa falta de talento pelo progresso que o espírito haveria alcançado no mundo espiritual. Aí um pouco de exagero e ingenuidade das partes, quando não houver completa cegueira dos envolvidos ao afirmar algo assim. Pois, nenhuma criatura que soube escrever com maestria, que dava vida aos seus personagens nos fazendo suspirar a cada página será fadado a completa falta de talento que vemos por aí desfilando nas páginas “psicografadas”. Outros questionamentos se impõem nessa situação.

Ao invés de expor-se dessa forma, seria prudente ao médium que se protegesse por detrás de um nome desconhecido. Qual a necessidade de se autoafirmar com uma assinatura conhecida no meio espírita? Antes de se enaltecer atrai para si críticas e desconfiança. O médium deve estar muito seguro do que faz nesse aspecto. Se a falta de talento não advém do escritor desencarnados que desaprendeu a escrever de onde provêm? Não devemos condenar o médium, pois sabemos que o processo de escrita mediunica é complexo e exige muito dos envolvidos e nem todos os participantes conseguem alcançar o nível que as mentes mais críticas considerariam adequado em uma avaliação literária. Cabe ao intermediário dos espíritos se preparar melhor, estudar, ler, aprender a escrever, pois psicografar não é apenas escolher uma dia e hora e sentar com um lápis na mão. É um estado constante de dedicação e aprimoramento. E em tempos onde impera a mediunidade intuitiva e inspirada, com a participação maior dos médiuns em fenômenos conscientes, cresce a responsabilidade no processo da escrita.

Podemos ainda levantar a questão econômica, pois o livro rotulado espírita é um interessante produto para o mercado editorial. A sanha por novas publicações faz crescer os equívocos. Livros não espíritas são vendidos com esse rótulo, autores que passam distante dos conceitos mais básicos da Doutrina dos Espíritos enchem de livros as bibliotecas dos centros espíritas. E onde está o responsável? É a editora, o médium, ou o espírito? É o leitor que não está capacitado para fazer uma analise mais profunda do material que tem em mãos, são os agrupamentos espíritas que não capacitam seus adeptos a uma visão reflexiva daquilo que escutam, é por último uma falência geral do Espiritismo em sua capacidade de esclarecer sendo mal explorada. As pessoas temem o questinamento, a dúvida. Ainda vivemos presos aos hábitos de aceitar toda opinião como verdade, sem reflexão, sem nos dar ao direito de pensar diferente. E o Espiritismo bem compreendido é exatamente isso, nunca se falou em Espiritismo que todos deveriamos pensar exatamente da mesma forma. Isso é um absurdo! Um retrocesso! Esses são alguns dos fatores responsáveis que podemos facilmente citar.

E porque existem obras fantásticas melhor construídas do que livros espíritas que deveriam refletir fatos reais do passado?

Tudo é uma questão de gosto, um autor não muda simplesmente por ter desencarnado. Já devem ter lido J. W. Rochester com a medium russa Wera K., pois bem, ao mesmo tempo em que obras ganharam prêmio pela excelência em retratar o contexto de sociedade antigas, inclusive obras condecoradas em academias de ciências, ele dedicou várias obras ao ocultismo e história fantásticas. Se tratava do mesmo médium e o do mesmo espírito, é possível perceber caracteristicas de sua literatura nas obras de ambos estilos. Qual a resposta para isso? Ele simplesmente gostava de escrever sobre esse tipo de tema. É um retrocesso? Não, longe disso. Rochester, através de Wera Krijanoviskaia é uma das melhores representações do fenômenos mediúnico que já tivemos, seus romances são muito bem construídos na questão do envolvimento do leitor com a história. São todas as suas obras espíritas? Não, mas não significa que sejam de má qualidade. Ou estamos aqui fazendo proselitismo e afirmando que apenas o Espiritismo salva o espírito humano?

A mesma coisa deve ocorrer com o autor de histórias fantásticas, eles são bons no que fazem, e a prática leva a perfeição em qualquer campo de atividades humanas, desencarnados certamente vão buscar seus afins para seguir inspirando outros a fazer o que gostam. Eles reencarnam, seguem na literatura, mudam um pouco de estilo, convivem em outras sociedade com novos valores, demoram a encontrar aquilo onde realmente se sentem confortáveis, onde tem talento, mas tendem a manter a essência de seus gostos. As mudanças na personalidade humana são muito mais lentas do que supomos, e salvo raros choques emocionais, tendemos a ter nossas experiências não muito distantes de nossa identificação mais íntima.


Deixemos as histórias fantasticas de lado, citemos, por exemplo, o marquês de Sade, e suas histórias eróticas, a riqueza de detalhes desse genero de autores, por vezes, pode ser classifica como fantástica, a descrição da sanha sexual de seus personagens nos descrevem seres que parecem se materializar diante de nós através da força do pensamento do leitor. Como se os personagens ganhassem vida antes nossos olhos. Não deixam de ter talento pelo fato de se dedicarem a uma literatura menos nobre. Agora imagine que esses autores, vão desencarnar e reencarnar inumeras vezes, vão amadurecer aos poucos, bem lentamente mesmo, inspirando uns aos outros durante todo esse processo. Chegará um dia em que fatigados mudarão de tema, terão saturado suas próprias forças e necessitarão, sentirão um anseio incontrolável por uma mudança de ares. Talvez fiquem algumas existências encarnando entre analfabetos, impondo uma limitação a si mesmos, com medo de recair em velhos erros. Até que mais seguros de suas próprias vontades, poderão, quem sabe, se dedicar ao uma forma mais elevada de literatura, talvez a literatura fantástica, ou seja o que for. Podemos inspirar o bem de muitas formas, mesmo através dos contos de fada, e na situação que abordamos seria um enorme progresso para o espírito em questão. Esses espíritos trarão consigo todo o talento lapidado ao longo do tempo, mais maduro e equilibrado, pois ao ser humano só resta progredir.

Aos médiuns das más obras de hoje em dia só resta melhorar, pois é isso que o futuro nos lega, nesse aspecto não temos alternativas. De tanto praticar o escritor medíocre de hoje será o mestre de amanhã, com suas prórias características e estilos. Ainda lembro quando comecei a escrever a obra “ Do século das Luzes” em que ouvia ao meu lado um paciente professor que me pedia para desenvolver melhor os personagens e tentar viver o ambiente que descrevia para dar vida a narrativa. Estamos todos aprendendo.

Leiam, sem dúvida uma de nossas melhores alternativas.