sexta-feira, 27 de dezembro de 2013
quinta-feira, 26 de dezembro de 2013
UM RELATO INESPERADO
De início, sem nenhuma ideia pré-concebida fui assaltado por um ambiente diferente que se mostrava persistente, com sons, cores e fortes impressões emocionais. As balas de canhão singravam os ares caindo sobre as rústicas construções de madeira, não sei onde estava, nem que ano era aquele, mas me parece que soldados atacavam uma pequena fortificação em ambiente descampado. Certamente estamos entre os séculos XVI e XVII, pois as armas e roupas eram facilmente identificáveis.
Vamos ao relato:
Quem eram aquelas pessoas que lançavam suas armas sobre nós. Fomos pegos de surpresa, levantei-me ainda atordoado. E foi por pouco, pois bastou ultrapassar o umbral da porta de nosso alojamento e tudo desmoronou com o peso da pesada bala de canhão que caia dos céus. Sem camisa, ainda tentando prender a espada a cintura corri para o pátio procurando compreender o que acontecia. Vi os homens correndo atordoados assim como eu, sem saber o que estava acontecendo. Alguns gritavam:
- Estamos sob ataque, as armas, as armas!!!
Logo as primeiras fumaças surgiam, e nossos alojamentos incendiavam rapidamente. O que acontecia? Quem nós atacava? Não tínhamos a menor ideia. Fora um fim inevitável, não havia como revidar. Pegos de surpresa caímos sem capacidade de responder ao ataque. Os sobreviventes foram facilmente feito prisioneiros. Alguns executados, outros que poderiam ser uteis serviam de guia e permaneciam vivos enquanto mantivessem a utilidade. Os nativos estavam com eles. Raça vil, diziam os homens, pois mudavam de lado, e faziam alianças com muitos ao mesmo tempo, tudo dependia da situação mais vantajosa. A ilusão do conquistador, nós que ali estávamos como invasores não éramos tão vis como esses nativos? Não havíamos os enganado e abusado para receber vantagens igualmente?
Isso não importava mais, estava tudo acabado, ao menos para mim. Meus anos de serviço militar a coroa havia felizmente terminado. Estava cansado de viver entre selvagens e mosquitos, sem o menor conforto. Isso não era a vida de aventuras e triunfos que nos haviam prometido. Ah... juventude e suas ilusões, como somos facilmente convencidos a assumir posições que mais tarde se mostram desfavoráveis.
Minha situação depois daquele ataque? Não sei muito bem o que se passou, estive de volta a Europa, revi minha cidade, mas completamente transformada, irreconhecível na verdade. Não foi fácil. Acreditei ter enlouquecido, talvez houvesse contraído alguma doença naquele mundo primitivo. Não fora homem letrado, mal sabia ler e escrever, o que por pouco que fosse me permitiu tomar posição de oficial de pequena patente no exercito de sua majestade.
Estive vagando, em outras terras, com outras formas, fui soldado, fui mendigo, tudo se confunde em minhas lembranças. Não sei exatamente porque me trazem até aqui, qual a intenção de me fazer falar dessa maneira. Recordações que me pareciam perdidas para sempre ressurgem e me atormentam, processo desagradável e inoportuno. Não quero lembrar, não quero saber sobre meu passado. Deixe-me esquecer! Deixe-me esquecer! Que tormenta se abate sobre o homem que não o permite esconder de si mesmo os resquícios negros que guarda e carrega em sua própria alma.
Minha cabeça dói, não a dor física de um pequeno mal, nem tão pouco a dor passageira de uma pancada fatal, dói pelo tormento do passado que ressurge afrontando minha tranquilidade, me perturbando sem paz. Eu que imaginava que todos os meus atos reprováveis haviam sido esquecidos juntamente com minha memória confusa.
Vejo que não, vejo que tudo ressurge, e lamento profundamente o dia que aqui pus meus pés. Neste solo ignoto, terra de minha perdição, que somente mal fez eclodir de minha alma. Que importa os infortúnios de selvagens? Que importa as mortes e abusos? Diziam que estes seres primitivos não tinham almas, haviam sido concebidos por Deus para servir o homem civilizado. Haviam nos garantido isso, era a opinião da Igreja! Não podem me inculpar se errei sob a tutela dos padres.
Esses vermes de batina. Classe de covardes hipócritas. Valiam-se de sua influência moral para enredar os ignorantes em suas armadilhas. Não eram melhores do que os soldados, mais mal do que nós faziam eles com suas tramas ardis.
O que mais querem que eu fale? Deixem-me em paz com minha insignificância! Já não pago o suficiente com minha indigência pelas ruas? Querem também minha alma, pois de mim já retiraram o orgulho e a mínima condição de subsistir. Quem são vocês monstros mascarados? Justiceiros dos infernos que vieram atormentar minha alma? Deixem-me em paz, deixem-me em paz!!!!
O espírito caiu em lágrimas. Não estava arrependido de nada. Enrodilhado em uma complexa trama de vários séculos, precisava trazer a tona alguns episódios do passado para dar prosseguimento ao seu processo de amadurecimento íntimo. Estamos ante um quadro comum na história do Brasil colonial, onde as monarquias europeias aqui disputavam as riquezas, explorando com amplo apoio da Igreja a vida nativa, usufruindo da vida do índio e, posteriormente, de negros africanos. Entretanto, não se faz aqui o julgamento de caso, pois não há inocentes nem culpados, se esses vários espíritos continuam vinculados a essa fantástica trama é porque encontraram motivações particulares para assim fazer. É o quadro típico da vingança que se arrasta por gerações, onde a vítima de um dia vira algoz no dia seguinte. O que fazer com esses irmãos? Rezar e esperar que o tempo cumpra sua missão. Haverá um dia em que recobrarão os sentidos e poderão ver a vida sem as amarras do egoísmo, e somente então estarão prontos para recordar o passado e amadurecer com o esforço para construir o próprio amadurecimento moral.
25/12/2013
domingo, 15 de dezembro de 2013
ENTRE MÉDIUNS: NOVAS FRONTEIRAS DA PESQUISA MEDIÚNICA
ENTRE MÉDIUNS: NOVAS FRONTEIRAS DA PESQUISA MEDIÚNICA
Julie Beischel, PhD
Acabei de ler o livro "Among Mediuns: a Scientist's Quest for Anwers" (Entre Médiuns: Uma Busca Científica por Respostas", escrito pela Doutora Julie Beischel, doutora em Farmacologia e Toxicologia na Universidade do Arizona - EUA. O livro foi publicado apenas como e-book, em língua inglesa, e pode ser facilmente adquirido no site da Amazon, e custou apenas R$ 10,15 (dez reais e quinze centavos!)
É um relato, quase uma conversa que ela faz com o leitor, apresentando sua trajetória e as principais linhas de pesquisa com médiuns realizadas no Windbridge Institute, organização que ela fundou com outros pesquisadores para dedicar-se ao entendimento da mediunidade.
Minha leitura carrega sempre alguns olhares: a do professor-pesquisador, a do espírita, a do médium, a do humanista. Posso não concordar com tudo o que ela pensa e diz, mas saí muito favoravelmente impressionado com o trabalho dela.
Beischel dividiu as pesquisas em três grandes programas: o programa de pesquisas de informação (que informações trazem as mensagens mediúnicas?), o programa de pesquisas de operação (o que sentem e vivenciam, como modificam os organismos e qual é a psicologia dos médiuns durante o transe?) e o programa de pesquisas de aplicação (uso da mediunidade no tratamento do luto/melancolia, no apoio às investigações policiais, entre outros).
Do ponto de vista metodológico, chama a atenção a inteligência do design experimental usado nas pesquisas. Ao criar instâncias entre o médium e o consulente, além de nunca permitir o contato direto destes, ela conseguiu fazer avançar um tema que se encontrava "travado" desde a pesquisa de Rhine e as oposições dos céticos, e inovou ao desenvolver métodos para verificar a qualidade das informações fornecidas pelos médiuns, praticamente anulando hipóteses como cold readings e outras usadas para justificar os acertos realizados por eles.
Um dos capítulos que me emocionou foi o das aplicações, especialmente quando ela fala do luto/melancolia. Julie cita alguns casos de pessoas que reescreveram seu script de vida após receberem uma comunicação mediúnica de afetos que já se foram. Ela diz que se a indústria farmacêutica tivesse um remédio de efeito tão imediato sobre o luto, seu inventor já teria ficado rico e notório.
O capítulo das pesquisas fenomenológicas, fisiológicas e psicológicas da mediunidade também é um primor. Ela se refere aos estudos de personalidade dos médiuns (na amostra dela, das médiuns), usando o MTBI (Inventário de Tipos Psicológicos Myers-Briggs), por exemplo, que classifica as pessoas segundo a proposta de tipos psicológicos de Jung. 83% dos médiuns foram classificados com a díade de tipos intuição-sentimento.
Este é um livro cuja tradução faria sucesso e causaria alguma polêmica em nosso meio. Quem sabe não conseguimos autorização da fundadora do Windbridge Institute para traduzi-lo para o português?
Fonte: Jader Sampaio, em http://espiritismocomentado.blogspot.com.br/
quarta-feira, 27 de novembro de 2013
Porque os livros espíritas andam tão ruins?
A literatura espírita tem feito despontar alguns questionamentos muito oportunos entre os companheiros espíritas mais lúcidos, que realmente aprofundam as reflexões sem a intenção de apenas criticar (destruir) algo. Um dos questionamentos mais frequentes é com relação a qualidade da escrita dos espíritos, e aqui começa a confusão.
Precisamos em primeiro lugar compreender que nem todo espírito é espírita, diriamos mais, apesar de desencarnados a minoria desses espíritos professa os conceitos e enunciados defendidos pela doutrina de Allan Kardec. Um número um pouco maior se alinha com os conceitos espiritualistas, que são mais amplos, mas a imensa maioria dos espíritos não é espírita, continuam seguindo as inclinações que possuiam enquanto encarnados. Desfeito esse primeiro equívoco, que visa estimular o leitor a reconhecer, ou procurar meios de fazê-lo, o livro espírito através de seu conteúdo, podemos dar continuidade a nossa reflexão.
Uma segunda questão, de análise um pouco mais complexa, é a questão da autoria espiritual. Como é possível que famosos escritores do passado tenham desaprendido a escrever? Porque a qualidade das narrativas, por vezes, tende a níveis pífios quanto a construção dos personagens, descrições de ambientes, estados psicológicos, etc? Será que esses autores espirituais desaprenderam a escrever? Essas indagações nos fazem refletir sobre outras questões, não menos complexas. Essa é a grande questão do Espiritismo, não afirmar verdade, mas provocar a reflexão, análisar o contexto dos fatos.
Um espírito, que quando encarnado fosse tido por um erudito no campo das letras é fácilmente reconhecido por seus fãs através da análise de suas características de escrita. Esse é um primeiro ponto que deve ser levado em conta. Temos evidências nesse sentido analisando a obra? O espírito desencarnado ele não iria desapreender a escrever, pode haver uma mudança de estilo, como acontece tantas vezes entre escritores e pintores, que passam por novas fases de inspiração e temas. Isso é perfeitamente aceitável, o seria em vida, porque não em morte, já que a vida prossegue seu curso do lado de lá? Porém, como explicar que espíritos conhecidos no meio espírita, escrevam com diferentes intermediários e não consigamos encontrar essas tais características literárias? E pior ainda, as vezes, os médiuns sabedores disso ainda justificam essa falta de talento pelo progresso que o espírito haveria alcançado no mundo espiritual. Aí um pouco de exagero e ingenuidade das partes, quando não houver completa cegueira dos envolvidos ao afirmar algo assim. Pois, nenhuma criatura que soube escrever com maestria, que dava vida aos seus personagens nos fazendo suspirar a cada página será fadado a completa falta de talento que vemos por aí desfilando nas páginas “psicografadas”. Outros questionamentos se impõem nessa situação.
Ao invés de expor-se dessa forma, seria prudente ao médium que se protegesse por detrás de um nome desconhecido. Qual a necessidade de se autoafirmar com uma assinatura conhecida no meio espírita? Antes de se enaltecer atrai para si críticas e desconfiança. O médium deve estar muito seguro do que faz nesse aspecto. Se a falta de talento não advém do escritor desencarnados que desaprendeu a escrever de onde provêm? Não devemos condenar o médium, pois sabemos que o processo de escrita mediunica é complexo e exige muito dos envolvidos e nem todos os participantes conseguem alcançar o nível que as mentes mais críticas considerariam adequado em uma avaliação literária. Cabe ao intermediário dos espíritos se preparar melhor, estudar, ler, aprender a escrever, pois psicografar não é apenas escolher uma dia e hora e sentar com um lápis na mão. É um estado constante de dedicação e aprimoramento. E em tempos onde impera a mediunidade intuitiva e inspirada, com a participação maior dos médiuns em fenômenos conscientes, cresce a responsabilidade no processo da escrita.
Podemos ainda levantar a questão econômica, pois o livro rotulado espírita é um interessante produto para o mercado editorial. A sanha por novas publicações faz crescer os equívocos. Livros não espíritas são vendidos com esse rótulo, autores que passam distante dos conceitos mais básicos da Doutrina dos Espíritos enchem de livros as bibliotecas dos centros espíritas. E onde está o responsável? É a editora, o médium, ou o espírito? É o leitor que não está capacitado para fazer uma analise mais profunda do material que tem em mãos, são os agrupamentos espíritas que não capacitam seus adeptos a uma visão reflexiva daquilo que escutam, é por último uma falência geral do Espiritismo em sua capacidade de esclarecer sendo mal explorada. As pessoas temem o questinamento, a dúvida. Ainda vivemos presos aos hábitos de aceitar toda opinião como verdade, sem reflexão, sem nos dar ao direito de pensar diferente. E o Espiritismo bem compreendido é exatamente isso, nunca se falou em Espiritismo que todos deveriamos pensar exatamente da mesma forma. Isso é um absurdo! Um retrocesso! Esses são alguns dos fatores responsáveis que podemos facilmente citar.
E porque existem obras fantásticas melhor construídas do que livros espíritas que deveriam refletir fatos reais do passado?
Tudo é uma questão de gosto, um autor não muda simplesmente por ter desencarnado. Já devem ter lido J. W. Rochester com a medium russa Wera K., pois bem, ao mesmo tempo em que obras ganharam prêmio pela excelência em retratar o contexto de sociedade antigas, inclusive obras condecoradas em academias de ciências, ele dedicou várias obras ao ocultismo e história fantásticas. Se tratava do mesmo médium e o do mesmo espírito, é possível perceber caracteristicas de sua literatura nas obras de ambos estilos. Qual a resposta para isso? Ele simplesmente gostava de escrever sobre esse tipo de tema. É um retrocesso? Não, longe disso. Rochester, através de Wera Krijanoviskaia é uma das melhores representações do fenômenos mediúnico que já tivemos, seus romances são muito bem construídos na questão do envolvimento do leitor com a história. São todas as suas obras espíritas? Não, mas não significa que sejam de má qualidade. Ou estamos aqui fazendo proselitismo e afirmando que apenas o Espiritismo salva o espírito humano?
A mesma coisa deve ocorrer com o autor de histórias fantásticas, eles são bons no que fazem, e a prática leva a perfeição em qualquer campo de atividades humanas, desencarnados certamente vão buscar seus afins para seguir inspirando outros a fazer o que gostam. Eles reencarnam, seguem na literatura, mudam um pouco de estilo, convivem em outras sociedade com novos valores, demoram a encontrar aquilo onde realmente se sentem confortáveis, onde tem talento, mas tendem a manter a essência de seus gostos. As mudanças na personalidade humana são muito mais lentas do que supomos, e salvo raros choques emocionais, tendemos a ter nossas experiências não muito distantes de nossa identificação mais íntima.
Deixemos as histórias fantasticas de lado, citemos, por exemplo, o marquês de Sade, e suas histórias eróticas, a riqueza de detalhes desse genero de autores, por vezes, pode ser classifica como fantástica, a descrição da sanha sexual de seus personagens nos descrevem seres que parecem se materializar diante de nós através da força do pensamento do leitor. Como se os personagens ganhassem vida antes nossos olhos. Não deixam de ter talento pelo fato de se dedicarem a uma literatura menos nobre. Agora imagine que esses autores, vão desencarnar e reencarnar inumeras vezes, vão amadurecer aos poucos, bem lentamente mesmo, inspirando uns aos outros durante todo esse processo. Chegará um dia em que fatigados mudarão de tema, terão saturado suas próprias forças e necessitarão, sentirão um anseio incontrolável por uma mudança de ares. Talvez fiquem algumas existências encarnando entre analfabetos, impondo uma limitação a si mesmos, com medo de recair em velhos erros. Até que mais seguros de suas próprias vontades, poderão, quem sabe, se dedicar ao uma forma mais elevada de literatura, talvez a literatura fantástica, ou seja o que for. Podemos inspirar o bem de muitas formas, mesmo através dos contos de fada, e na situação que abordamos seria um enorme progresso para o espírito em questão. Esses espíritos trarão consigo todo o talento lapidado ao longo do tempo, mais maduro e equilibrado, pois ao ser humano só resta progredir.
Aos médiuns das más obras de hoje em dia só resta melhorar, pois é isso que o futuro nos lega, nesse aspecto não temos alternativas. De tanto praticar o escritor medíocre de hoje será o mestre de amanhã, com suas prórias características e estilos. Ainda lembro quando comecei a escrever a obra “ Do século das Luzes” em que ouvia ao meu lado um paciente professor que me pedia para desenvolver melhor os personagens e tentar viver o ambiente que descrevia para dar vida a narrativa. Estamos todos aprendendo.
Leiam, sem dúvida uma de nossas melhores alternativas.
domingo, 13 de outubro de 2013
EMANCIPAÇÃO DA ALMA
Muito em breve um novo romance entitulado “O Testemunho dos Sábios” estará publicado e disponível para os leitores. Enquanto isso, buscamos mais um dos nossos antigos textos originais que mantemos em arquivo. Boa leitura e excelente reflexão!
EMANCIPAÇÃO DA ALMA
O MATERIALISTA, QUE NÃO VÊ SENÃO O CORPO E NÃO CONSIDERA A ALMA, NÃO PODE COMPREENDER ESSAS COISAS; MAS O ESPÍRITA, QUE SABE O QUE SE PASSA ALÉM DO TÚMULO, CONHECE O VALOR DO ÚLTIMO PENSAMENTO. ABRANDAI OS ÚLTIMOS SOFRIMENTOS QUANTO ESTEJA EM VÓS; MAS GUARDAI-VOS DE ABREVIAR A VIDA, NÃO FOSSE SENÃO DE UM MINUTO, PORQUE ESSE MINUTO PODE POUPAR MUITAS LÁGRIMAS NO FUTURO.
(SÃO LUIS. O Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap V, item 28).
Como chegamos à condição de Espíritos?
Que caminhos nós percorremos para chegar ao momento que hoje vivenciamos?
Responder estas questões é o grande dilema das tradições religiosas, apegadas em demasia ao sentido literal dos textos sagrados carregados de simbolismo.
Para a Doutrina Espírita, como preconizada por seu organizador Allan Kardec, que deveria acompanhar o desenvolvimento científico estimulando por sua fez o crescimento moral de seus adeptos e de uma maneira geral de toda a sociedade, tais questionamentos não conseguem embaraçar as convicções espíritas, principalmente naqueles que dedicam algo de seu tempo ao estudo sério e aplicado.
Em consonância com a teoria evolucionista de Darwin e igualmente de Alfred Russel Wallace, a Doutrina Espírita assume a condição evolucionária da individualidade. A idéia de que somos seres em processo continuado de evolução que antes de adquirirmos condições de animar um envoltório humano estagiamos em outros reinos da natureza. A espiritualidade nos fala de um Deus justo e bom, e que sendo assim não condenaria nenhum ser a estagnação eterna, permitindo que todos pudessem se desenvolver. Criar uma criatura condenada à eterna condição de imutabilidade é demonstrar parcialidade e favorecimento, imperfeições que Deus sendo a expressão máxima da perfeição não poderia possuir. Desta forma nos torna impossível não aceitar a condição evolutiva e desenvolvimentista do Ser.
Definindo esta condição, encontramos então um ser humano que não é seu corpo biológico e sim o Espírito que a ele dá forma e vivifica. Até onde nos foi possível conhecer, o Espírito passou pelo processo de desenvolvimento ensaiando o comando infinitesimal, modelando e vivificando outros seres da natureza. A conceituação trazida pelos espíritos da codificação kardequiana nos esclarece que existe uma grande diferença entre os espíritos que estagiam nos reinos inferiores da natureza e os espíritos que animam o ser humano. Em função desta diferença deve-se adotar o termo “princípio inteligente” para aqueles seres que não possuindo capacidade reflexiva encontram-se em desenvolvimento nos reinos vegetal e animal.
Devido a esta falta de capacidade reflexiva sabe-se que os princípios espirituais (inteligentes) que animam os animais mantêm-se vinculados ao corpo quando do momento do descanso físico. O princípio inteligente permanece como que em estado hibernatório durante o sono no corpo orgânico. Porque permanecer na espiritualidade se não haveria capacidade de entendimento da situação? E sem essa capacidade também não haveria responsabilidade que culminasse em necessidades de ressarcimento, anulando assim o complexo de culpa e as crises de consicência.
Através do processo evolutivo o antropóide primitivo foi passando por transformações, desenvolvendo equipagem de maior capacidade para as atividades inteligentes. Na mesma proporção em que seu cérebro desenvolvia-se se aprimorava sua capacidade reflexiva, seu entendimento. Iniciando gradual e lento processo de desvinculação espiritual durante o sono físico. A capacidade subjetiva igualmente foi crescendo e com ela surgiram às primeiras manifestações ritualísticas, que davam conta de representar a capacidade de entendimento dos princípios inteligentes tinham de interpretar o que viam e sonhavam.
Elevando-se a condição hominal, há mais ou menos 30 mil anos, adquiriu o estágio evolutivo em que nos debatemos no presente momento. Em alguns mais rapidamente em outros mais lentamente, foi o princípio inteligente se gabaritando ao status de ser reconhecido como Espírito. Espírito é o ser em sua integralidade dotado da capacidade de refletir sobre sua situação, o contexto em que se encontra inserido, e a capacidade de adaptar-se as mudanças necessárias ao seu progresso. Desta forma o Homem dava o passo definitivo na conquista de sua independência espiritual, muito ainda haveria de trilhar, mas de agora em diante assumia a condição de responsabilidade pelo seu próprio desenvolvimento.
Em condições de compreender diferentes contextos empreende o ser humano maiores vôos na esfera espiritual, regressando com a mente animada por diferentes idéias, despertando a sensibilidade e a idéia de uma vida que transcende a morte do corpo e encontra-se sob a direção de inteligências superiores, muitas vezes representada pela figura de raios, do sol ou da lua.
Ao nos depararmos atualmente com o processo complexo dos sonhos encontramos diferentes explicações que inutilmente tentam dar cabo de esclarecer aquilo que a inteligência humana restringida pelo estrangulamento que a matéria ainda nos impõe não consegue perceber em sua integralidade. Disfunções orgânicas, má alimentação; reflexos emocionais de nossas experiências diárias, ansiedades, preocupações; lembranças de vidas pretéritas; experiências e contatos com o plano espiritual; todas essas opções são possíveis e podem fornecer alguma explicação quanto ao teor de nossas manifestações oníricas. O mais correto seria afirmar que em se tratando de conteúdo dos sonhos ainda estamos muito pouco esclarecidos a respeito, todas as tentativas de explicações levantadas parecem interligarem-se e manifestarem-se em conjunto quando nos recordamos daquilo que vivemos ao dormir. Não nos parece aconselhável estimular apego demasiado sobre aquilo que sonhamos.
Concluímos que somos, pelo desenvolvimento da capacidade intelectiva, capazes de estagiarmos fora do corpo durante o sono físico. Se existe tal possibilidade para onde vamos? Não conseguimos em nosso estágio atual recordar integralmente daquilo que sonhamos, do que podemos ou não ter participado na espiritualidade durante o período de sono, mas nem por isso somos incapazes de deduzir a qualidade de nossas companhias espirituais, basta que prestemos atenção nas sensações que nos preenchem a intimidade ao acordar.
Nosso maquinário físico ainda pouco afeito a possibilidade de intercâmbio espiritual não nos fornece condições de nos apropriarmos das recordações daquilo que experienciamos quando nosso espírito estagia fora do vaso físico. Por tratar-se de uma dimensão diferente, composta igualmente de matéria de constituição diferenciadas existe a impossibilidade da perfeita transmissão de dados entre os mundos. Aquelas pessoas que credenciadas biologicamente a obterem uma maior capacidade de recordações de suas vivências espirituais durante o sono podem ser enquadradas nos fenômenos de desdobramento, por alguns também chamada de viagem astral ou apometria. Aqueles que buscam desenvolver esta faculdade anímica perante os postulados do Espiritismo são médiuns de desdobramento, muitas vezes sendo utilizados por espíritos desencarnados em atividades mediúnicas.
Em O Livro dos Espíritos aprendemos com os espíritos superiores que é graças ao desprendimento espiritual que ocorre durante o descanso físico que espíritos mais desenvolvidos que a média terrestre dispõem-se a encarnar em nosso meio. É no momento do sono que estes companheiros mais elevados buscam respirar na atmosfera mais sutil experiências motivadoras, onde buscam forças para o cumprimento de suas missões, estes momentos constituem-se em “recreio” após longo dia de árduo trabalho.
Uma vez que todos, mesmo que não possamos recordar, por estarmos desfrutando da condição hominal possuímos condições de desfrutar de uma maior liberdade durante o sono físico seria coerente nos admitirmos aprisionados ao corpo?
São inúmeros os casos de pessoas dadas clinicamente como mortas que retornam inexplicavelmente relatando com precisão tudo que se passou durante a cirurgia, o que ouviram e viram. Muitas dessas pessoas ao retornarem de uma experiência de quase morte (EQM) relatavam ter havido passado por um túnel, encontrando pessoas amigas já desencarnadas. Nosso cérebro quando não tendo condições de interpretar aquilo que percebe adapta estas informações por um processo de adoção de características similares em uma comparação. Como representar melhor o deslocamento da consciência para outra dimensão, a dimensão espiritual, do que se aproveitando da imagem de um túnel de luz?
O túnel era a forma subjetiva de interpretar o que viam e ninguém os haviam preparados para compreender. O tempo é inexistente para os espíritos, somos herdeiros da eternidade. Conseguimos captar aquilo que possuímos condições e interpretamos tudo asilados em nossas crenças e culturas.
De uma maneira geral as pessoas que têm uma EQM ou despertam de um processo de coma relatam eventos semelhantes, comprovando a inexistência de um local especial para os crentes de diferentes religiões. Encontramo-nos do outro lado da vida com a realidade que criamos intimamente para nós. Ao retornarmos desta experiência interdimensória recordamos prioritariamente o conteúdo emocional, manifestando-o em conformidade com nosso entendimento.
As diferentes constatações científicas como as dos médicos cientistas, Raymond Moddy Jr., Ken Ring, Elizabeth Kubler Ross[1], que realizaram estudos com pacientes que relatavam EQM despertam na comunidade científica a possibilidade da existência de uma consciência que independe do corpo físico e, portanto sobreviveria a morte do corpo. Tais assertivas assustam enormemente a comunidade materialista que apoiada em suas convicções ortodoxas não vê com bons olhos a possibilidade de perder o status pelos conceitos já formulados, o dogmatismo que levou a ciência a desvincular-se da religião no passado hoje impregna os grandes centros acadêmicos que temem rever suas concepções obsoletas.
A física quântica, com quase cem anos, é pouco difundida devido às resistências dogmáticas e interesses variados. Física e neurologia, aliadas, têm ambas buscado explicar a existência de uma consciência extracorpórea que presidiria as funções inteligentes do Homem. Essa consciência extracorpórea atende sob o nome de Espírito.
EQM e o processo comatoso potencializam o fenômeno de desdobramento do espírito, havendo então a possibilidade do espírito em seu veículo perispiritual observar limitadamente o mundo imaterial que o cerca diuturnamente.
O que mais assusta os céticos materialistas é que os estudos de EQM não nasceram das observações de crentes desta ou daquela religião, surgiram sob a investigação criteriosa de renomados pesquisadores despreocupados com as inclinações religiosas dos pacientes. A existência de diferentes e continuadas pesquisas nas mais diferentes instituições, nos mais diversos países, prenunciam uma mudança de paradigma que inevitavelmente ocorrerá. Esse movimento transformador culminará por constatar a existência de um ser espiritual que se sobrepõe à matéria, que sendo inteligente interage com o mundo físico, e que tem a possibilidade de retornar ao mundo orgânico através da lei biológica da reencarnação, forçando grandes mudanças nas concepções científicas vigentes.
Compreendendo tais alusões, entendendo ter o espírito ascendência sobre seu corpo material, trataremos com maior respeito nossos companheiros em processos comatosos, pois poderão eles estar ao nosso lado, participando ativamente de nossas vidas, encontrando-nos durante os sonhos, dependendo diretamente da relação de carinho que possamos lhes demonstrar para que se sintam motivados a lutar pelo restabelecimento.
Jamais poderemos esquecer que tudo obedece a um prévio planejamento, que muitas vezes participamos destes planejamentos e que cabe a nós, por exercício de nosso livre arbítrio seguirmos com aquilo que acordamos na espiritualidade. Sabemos que os últimos suspiros são as últimas amarras, que partidas, libertam o espírito para a vida na espiritualidade. Que estas amarras não podem ser cortadas pela ação do Homem sob o pressuposto de aliviar a morte, pois os laços devem ser desamarrados e jamais cortados. Qualquer corte brusco que signifique o não esgotamento natural das energias que prendem o espírito ao corpo podem significar um período de maior dor e vinculação ao corpo inerte. Deixemos que os últimos suspiros acendam na mente pela proximidade do desencarne as reflexões apuradas, que nos fazem rever atitudes, perdoar desafetos e valorizar a vida como benção de Deus. Deixemos o espírito refletir quanto ao: podia, devia, porque não fiz, queria que tivesse outra oportunidade. Chegando naturalmente a espiritualidade perceberá que pela graça divina a possibilidade de correção existe e consciente entregar-se-á em executá-la. Deixemos, por fim, que a morte nos transforme porque na maioria das vezes estamos inoperantes para as transformações que a vida nos deseja promover.
François.
25 de junho de 2005.
[1] Apontada pela revista Time como umas das cem maiores cientistas do século XX.
quarta-feira, 21 de agosto de 2013
VAZIO EXISTENCIAL E EXPOSIÇÃO ÍNTIMA
Ao longo do progresso da individualidade o espírito transita por diferentes situações existenciais. Considerando que o desenvolvimento de nossa civilização ainda carece de aprimoramento moral seria natural compreender nossa incapacidade de amar e compreender nossos companheiros de jornada. Essa carência afetiva, que se manifesta de modo generalizado na espécie humana não sofre influência apenas da falta de afeto durante a infância, ela tem origens mais profundas e complexas do que as ciências do comportamento supõem.
Vivemos um período de massificação dos meios de comunicação, nunca antes a exposição da vida pessoal esteve tão em voga. Todos temos facilidades de encontrar um meio de registrar nossa tristeza e aspirações frustradas. Estes episódios têm pululado as redes sociais, e se tornaram tão comuns que é fácil encontrar pessoas relatando abertamente suas desilusões amorosas, escancarando todos os seus complexos e suscetibilidades. Essa exposição de nossa intimidade, que surge como um ato de desequilíbrio, uma fraqueza momentânea escancara toda nossa carência.
Essa mesma carência é um sinal de imaturidade emocional, mas não podemos ser condenados por essa fraqueza por diversas razões. Quando uma individualidade, quer apresente um traço de personalidade nesse sentido ou apenas sofra momentaneamente desse mal, tende a buscar a aprovação alheia, quase como um pedido de socorro, rasga o próprio peito declamando aos quatro cantos o quanto se sente infeliz e frustrado(a). Na mediunidade essa fraqueza tem implicações perigosas, pois faz do médium um alvo de espíritos para fácil manipulação e vamos certamente encontrar interpretes dos espíritos dispostos a tudo fazer para agradar os ouvintes. Seguidamente usa-se uma falsa habilidade mediúnica para explorar e preencher esse vazio com a admiração e aprovação alheia.
Entretanto, nosso objeto de reflexão não é exatamente sobre esse tema. Pretendemos focar na questão dos relacionamentos afetivos. Porque tamanha desilusão? Porque o lamento de inúmeras criaturas que se dizem infelizes no relacionamento afetivo, seja essa relação heterossexual ou homossexual? Onde está o ponto nevrálgico dessa infelicidade?
Passa pela carência? Sim, ela também contribui. Porém, tem relação muito mais intrincada com egoísmo. Que num conjunto de comportamentos equivocados nos fragiliza e não permite avaliar o panorama geral em que nos encontramos e nos faz julgar as coisas com precipitação e imaturidade emocional. Estamos vivendo um período onde a liberdade do indivíduo e as facilidades promovidas pela modernidade vem sendo confundidas com o gozo e adoção de um estilo de vida excessivamente individualista.
Esse individualismo, essa forma mutada de egoísmo, faz com que as pessoas estejam pouco dispostas a alterar seus planos pessoais para incluir neles e, invariavelmente, adaptar-se aos planos de outra pessoa, o que tende a ser à base de um relacionamento afetivo normal. Todo indivíduo quer ter os prazeres de uma relação afetiva sem os deveres e momentos de compreensão que essa mesma situação exige. No mundo real não temos príncipes encantados, nem esposas perfeitas capazes de tudo fazer para agradar. Machismo e feminismo se digladiam medindo forças incapazes de encontrar um ponto de acordo. É preciso compreensão e paciência, pois somos atualmente incapazes de compreender o progresso incutido na relação íntima de um casal para se ter alguma harmonia. Esse exercício promotor do altruísmo e da nossa capacidade de ceder, demonstrando maturidade psicológica, vendo sendo colocado de lado.
Nossa sociedade de jovens incapazes de se relacionar, querendo ver seus desejos atendidos sem para isso nada cederem em contrapartida nos vem inquietando. Estaremos criando uma sociedade excessivamente egoísta formada por indivíduos incapazes do ato de compreensão? Essas questões são muito regionalizadas, mas o modo de vida do mundo moderno muito nos preocupa nesse sentido. Ante esse panorama fica fácil compreender o motivo de tantas criaturas escancararem seu profundo vazio de forma pública. Sequer compreendem que eles mesmos quando se lamentam demonstram que não estão dispostos a se relacionar com outra pessoa, querem ver diante de si o reflexo de suas expectativas, não a realidade. Quase sempre movidos pela imaturidade emocional.
E não é uma questão de solução fácil, pois está entranhada no progresso da individualidade. Que deve amadurecer por esforço próprio e não o fará sem o concurso do tempo. Entretanto, valores como a família e a maternidade precisam ser resgatados com urgência. Já que ninguém avança sem doação de amor. E amar não significa satisfação e prazer, mas entrega, compreensão e doação integral.
Pelo espírito A.
21.08.2013
sábado, 10 de agosto de 2013
O QUE A FÍSICA QUÂNTICA TEM A VER COM O ESPIRITISMO?
Estamos compartilhando o link da entrevista que o físico Alexandre Fontes da Fonseca concedeu ao Correio Fraterno. Respeitando a autoria evitamos copiá-la em nosso blog e remetemos os leitores ao site onde consta a entrevista na íntegra. Boa leitura!
