segunda-feira, 25 de junho de 2012

O DESTINO

O Destino é normalmente concebido como uma sucessão de acontecimentos inevitáveis que seguem uma ordem cósmica. Essa crença manifestava-se na mitologia grega, por exemplo, com as MOIRAS e o tear. O fatalismo defendido por diferentes filósofos através dos tempos afirma que existe uma história a ser cumprida e esses fatos são irrevogáveis, independentemente de nossa vontade.

Essa visão reforça um péssimo comportamento humano, o hábito enraizado que temos de nos acomodar. Crer que o futuro está escrito de forma inalterável é um estímulo a falta de vontade em quer mudá-lo. Desde os tempos mais remotos, apegada a superstição e ao comodismo, a humanidade tem se válido de pessoas com dons da adivinhação para buscar sondar aquilo que está oculto. Allan Kardec, tanto em O Livro dos Espíritos, quanto em O Livro dos Médiuns, foi taxativo ao desencorajar os Espíritas as questões alimentadas pela curiosidade vulgar. Entretanto, os espíritas curiosos por saber seu futuro ou passado são a maioria. Podemos compravar pelas inúmeras manifestações nesse sentido que surgem diuturnamente no movimento espírita. Falta de compreensão? Eu diria ser difícil deixar de lado nossa antiga paixão pela crença supersticiosa. Estamos aprendendo, muito devagar, mas estamos.

Afinal, é exatamente a mesma coisa que fizemos com Buda e com Jesus. Ambos inquietavam-se com o sofrimento humano e propunham uma profunda de mudança de comportamento. Se essas duas personalidades ouvissem as histórias que contamos sobre eles sequer se reconheceriam. Por exemplo, Jesus nunca foi Cristo, era apenas Jesus de Nazaré, assim como nasceu nessa cidade e não em Belém. As alterações são oriundas de influência supersticiosa da época e ocorreram após a morte do mesmo. Sempre a superstição e outros interesses mundanos. Buda afirmava convictamente que somos influênciados pelo passado, mas a vontade permanece livre. Continuamos repetindo erros, como o aluno que não consegue aprender.

Se seguissemos a orientação de Allan Kardec de avançar ao lado da ciência deixariamos de usar livros de 200 anos para afirmar questões fora de sintonia com os as comprovações de nossa época. Mais uma vez o comodismo e o velho hábito de idolatrar ícones que pediram para não ser idolatrados. Atualmente uma das teorias da física, proposta por Richard Feyman, afirma que no universo existem todas as histórias. Ou seja, é como o livro em que podemos escolher o destino do personagem principal segundo as escolhas que realizarmos. Não existiria uma opção, mas todas elas.

Até porque no fatalismo, uma vez revelado algo de nosso futuro que não poderiamos alterar sofreriamos a agonia da inexorabilidade. Uma espécie de masoquismo, saber que vamos sofrer, e ter os dias contados para que esse sofrimento nos alcance sem que nada pudessemos fazer. Pareceria uma lei divina de um Ser pautado pelo Amor?

Portanto, na ciência atual a previsão do futuro não é exata, mas estatística, trabalha com probabilidades. As descobertas científicas avançam, a própria ciência bem compreendida é uma forma de religião. Muitas vezes tem maior capacidade de nos aproximar de Deus do que as próprias religiões instituídas obsoletas em suas intransigências e preconceitos.

Vamos a um exemplo de como deveriamos entender uma revelação do futuro sob esse ponto de vista. Imaginemos que um “vidente” afirma que alguém sofrerá um grave acidente de trânsito. E isso realmente aconteceu posteriormente. Como isso é possível?

A pessoa com sensibilidade soube dessa informação por duas vias possiveis, a primeira é de um modo intuitivo, totalmente incosciente de seu verdadeiro funcionamento, a segunda foi através da orinetação espiritual. Imaginemos que um espírito familiar da pessoa que sofreu o acidente estivesse preocupado com a situação que observava, algo perfeitamente natural quando gostamos de alguém e nos preocupamos com o bem-estar dessa pessoa. O espírito desencarnado, se detentor de algum conhecimento, poderia estar ciente do passado dessa pessoa, assim como teria condições de avaliar os estado íntimo do mesmo, seus pensamentos e sentimentos. Vendo na conduta dessa pessoa o hábito de beber e dirigir, acumulado a sensação de invunerabilidade típica da juventude imatura e uma crescente agressividade, percebeu que a propabilidade de ocorrer um acidente de trânsito era eminente. E devido ao agravamento da mistura de alcool e o estado íntimo da pessoa a tendência é que a alta velocidade provocaria algo sério.

É uma previsão do futuro como estamos acostumados a supor? Estamos diante de uma realidade mais justa, onde somos influenciados pelo passado, por nosso comportamento atual e estado íntimo, mas temos condições de atenuar as consequências através de nosso esforço e vontade. Não foi uma previsão, mas uma análise séria e bem fundamentada da realidade que alguém mais maduro e consciente fez da situação em que o encarnado vivia. É como o exemplo de Allan Kardec, onde os mais experientes já estavam mais próximos do topo da montanha e olhando para trás conseguiam perceber os perigos que aguardavam aqueles que começavam a escalada, pois já haviam superado tais obstáculos.

O mesmo procedimento se daria com a previsão de doenças, que poderiam estar manifestas no períspirito, serem fruto de comportamentos de vidas anteriores ou de um comportamento atual, mas que foram geradas por nós e não por um determinismo cego que tornaria Deus uma criatura tirânica. A previsão de guerras é fruto da análise geopolítica de espíritos mais experientes que conseguem relacionar o passado e o estado psicológico coletivo das comunidades envolvidas. Ou ainda da previsão de catastrofes naturais com os “metereologistas das espiritualidade”. Deixemos de lado a superstição e o interesse pela revelação. Nos preocupemos com a mensagem esquecida das grandes personalidades históricas, que sempre pregaram uma grande transformação de comportamento para o alívio do sofrimento gerado por nós mesmos.

 

François e Frei Felipe

25/06/2012

sexta-feira, 8 de junho de 2012

O ESPIRITISMO SEGUNDO OS ESPÍRITAS

o número de 31 de dezembro de 1865 da Revista Espírita contém o artigo seguinte:

"Espíritas e Espiritismo são duas palavras agora muito conhecidas e frequentemente empregadas, embora fossem desconhecidas há somente alguns meses. No entanto, a maioria das pessoas que se servem dessas palavras delas se perguntam o que significam exatamente, e se bem que cada um se pergunte isso, ninguém a dirige porque todos querem passar por conhecer a palavra e a charada.

"Algumas vezes no entanto, a curiosidade intriga até levar a interrogação aos lábios, e, ao vosso desejo, todos vos informam.

"Uns pretendem que o Espiritismo seja o truque do guarda-roupa dos irmãos

Davenport; outros afirmam que não é outra coisa senão a magia e a bruxaria de outrora que se quer reabilitar graças a um novo nome. Segundo as idosas de todos os quarteirões, os Espíritas têm conversas misteriosas com o diabo, com o qual preliminarmente assumiram um compromisso. Enfim, se leram os jornais, ali se aprende que os Espíritas são todos loucos, ou pelo menos as vítimas de certos charlatães chamados médiuns. Esses charlatães a eles vêm, com ou sem guarda-roupa, dar representações a quem quiser pagá-los, e, para melhor acreditar seu malabarismo, dizem operar sob a influência oculta dos Espíritos de além-túmulo.

"Eis o que aprendi nestes últimos tempos; vi o desacordo dessas respostas, resolvi, para me esclarecer, ir ver o diabo, devesse ele me levar, ou fazer-me vítima por um médium, devesse deixar-lhe minha razão. Lembrei-me, então, muito a propósito, de um amigo que supunha do espiritismo, e fui encontrá-lo, a fim de que me proporcionasse os meios de satisfazer minha curiosidade.

"Comuniquei-lhe as opiniões diferentes que tinha recolhido e lhe expus o objeto de minha visita. Mas meu amigo riu muito daquilo que chamava minha ingenuidade e deu-me mais ou menos a explicação que segue:

"O Espiritismo não é, como se crê vulgarmente, uma receita para fazer as mesas dançarem ou para executar torneios de escamoteação, e é erradamente que cada um quer nele encontrar o maravilhoso.

"O Espiritismo é uma ciência ou, dizendo melhor, uma filosofia espiritualista que ensina a moral. "Ela não é uma religião, naquilo que não tem nem dogmas, nem culto, nem sacerdotes, nem artigos de fé; é mais do que uma filosofia, porque sua doutrina é estabelecida sobre a prova certa da imortalidade da alma: é para fornecer essa prova que os Espíritas evocam os Espíritos de além-túmulo.

"Os médiuns são dotados de uma faculdade natural que os torna próprios para

servirem de intermediários aos Espíritos e produzirem com eles os fenômenos que passam por milagres ou por da prestidigitação aos olhos de quem lhes ignora a explicação. Mas a faculdade medianímica não é o privilégio exclusivo de certos indivíduos; ela é inerente à espécie humana, embora cada uma a possua em graus diferentes, ou sob diferentes formas.

"Assim, para quem conhece o Espiritismo, todas as maravilhas das quais acusam essa doutrina não são muito simplesmente senão fenômenos de ordem física, quer dizer, efeitos cuja causa reside nas leis da Natureza.

"No entanto, os Espíritos não se comunicam aos vivos como único objetivo de provar a sua existência: são eles que ditaram e desenvolvem todos os dias a filosofia espiritualista.

"Como toda filosofia, esta tem seu sistema, que consiste na revelação das leis que regem o Universo e na solução de um grande número de problemas filosóficos diante dos quais, até aqui, a Humanidade impossibilitada foi constrangida a se inclinar.

"É assim que o Espiritismo demonstra, entre outras coisas, a natureza da alma, sua desatinação, a causa de nossa existência neste mundo; ele revela o mistério da morte; dá a razão dos vícios e das virtudes do homem; diz o que é o homem, o que é o mundo, o que é o Universo; faz, enfim, o quadro da harmonia universal, etc.

"O sistema repousa em provas lógicas e irrefutáveis que têm, elas mesmas, por

árbitro de sua verdade os fatos palpáveis e a razão mais pura. Assim, em todas as teorias que expõe, age como a ciência e não avança um ponto desde que o precedente não esteja completamente certificado. Igualmente, o Espiritismo não impõe a confiança, porque não tem necessidade, para ser aceito, senão da autoridade do bom senso.

"Este sistema estabelece, nele é deduzido, como conseqüência imediata, um ensino moral.

"Esta moral não é outra que a moral cristã, a moral que está escrita no coração de todo ser humano, e ela é de todas as religiões e de todas as filosofias, por isto mesmo pertence a todos os homens. Mas, livre de todo fanatismo, de toda superstição, de todo espírito de seita ou de escola, ela resplandece em toda a sua pureza.

"É a esta pureza que ela pede toda a sua grandeza e toda a sua beleza, de sorte que é a primeira vez que a moral nos aparece revestida de um brilho tão majestoso e tão esplêndido.

"O objeto de toda moral é de ser praticada; mas esta sobretudo tem esta condição como absoluta, porque ela chama Espíritas, não aqueles que aceitam os seus preceitos, mas somente aqueles que colocam os seus preceitos em ação.

"Direi quais são as suas doutrinas? Não pretendo ensinar aqui, e o enunciado das máximas me conduziria necessariamente a desenvolvê-las.

"Direi somente que a moral espírita nos ensina a suportar a infelicidade sem

desprezá-la, a gozar da felicidade sem a ela nos prender; nos abaixa sem nos humilhar, nos eleva sem nos orgulhar; ela nos coloca acima dos interesses materiais, sem por isto marcá-los de aviltamento, porque nos ensina, ao contrário, que todas as vantagens das quais somos favorecidos são tantas f orcas que nos são confiadas e por cujo emprego somos responsáveis para com os outros e para conosco mesmos.

"Vem, então, a necessidade de especificar essa responsabilidade, as penas que são dadas à infração ao dever, e as recompensas das quais gozam aqueles que a obedeceram. Mas aí ainda, as assertivas não são tiradas senão dos fatos e podem se verificar até a perfeita convicção. "Tal é esta filosofia, onde tudo é grande, porque tudo nela é simples; onde nada é obscuro, porque nela tudo está provado; onde tudo é simpático, porque cada questão nela

interessa intimamente a cada um de nós.

"Tal é esta ciência que, projetando uma viva luz sobre as trevas da razão, desvenda, de repente, os mistérios que acreditávamos impenetráveis, e recua ao infinito o horizonte da inteligência.

'Tal é esta Doutrina que pretende tornar felizes, melhorando-os, todos aqueles que consentem em segui-la, e que abre, enfim, à Humanidade, um caminho seguro ao progresso moral.

"Tal é, enfim, a loucura da qual os Espíritas estão atacados, e a feitiçaria que

praticam."

"Assim, sorrindo, termina meu amigo, quem, a meu pedido, me deu encontro para visitarmos juntos algumas reuniões espíritas, onde as experiências se juntam ao ensinamento.

"De volta à minha casa, lembrei-me o que tinha dito, de acordo com todo o mundo, contra o Espiritismo, antes de conhecer apenas o significado desta palavra, e essa lembrança encheu-me de uma amarga confusão.

"Pensei, então, que, apesar dos desmentidos severos infligidos ao orgulho humano pelas descobertas da ciência moderna, não pensamos quase nada, nos tempos de progresso em que vivemos, em aproveitar os ensinamentos da experiência; e que estas palavras escritas por Pascal, há duzentos anos, terão ainda durante séculos uma rigorosa exatidão: "É uma doença natural ao homem crer que possui a verdade diretamente; e daí vem que está sempre disposto a negar o que lhe é incompreensível."

"A. BRIQUEL"

Allan Kardec publicou a reportagem do La Discussion, jornal hebdomanário, político e financeiro, impresso em Bruxelas, na revista espírita de fevereiro de 1866.

sábado, 26 de maio de 2012

APRESENTAÇÃO DE NOSSO 1º LIVRO EM RUSSO

 

Спиритизм в России 2011


Assim como a idéia de criar um blog espírita em russo a ideia desse livro surgiu como consequencia natural de nossas atividades. Compartilhar nossas experiência com os companheiros de ideal tem sido gratificante. Apesar das obras de Allan Kardec terem tocado o coração da sociedade imperial russa do século XIX, tendo Aleksander Aksakov e Wera Krijanovskaya como principais expoentes, o século XX apagou seus traços. O Espiritismo com o tempo sofreu transformações, a mensagem dos espíritos era clara, falava de valores universais, estimulando a fraternidade e o conhecimento.

Nossas raízes místicas e supersticiosas, assim como valores mundanos, nos fizeram distorcer os valores fundamentais dos princíos básicos da Doutrina dos Espíritos, que deveria ser o instrumento de diálogo entre a diferentes formas de compreender a vida e das religiões espalhadas pelo globo. Justamente por se interessar por questões fundamentais da natureza humana, como a sobrevivência após a morte, a esperança e alívio do sofrimento, o Espiritismo tem a força para transformar a sociedade. Devendo para tanto caminhar sempre ao lado dos enunciados científicos. A lógica e o bom senso, além da fraternidade são os principais pilares do Espiritismo e deles o mesmo não deve se afastar.

No Espiritismo não há lideres instituitos, nem tão pouco sua filosofia pretende competir com as religiões. A palavra Espiritismo tomou significado diferente ao redor do mundo, mas os princípios organizados com Allan Kardec continuam extremamente atuais e são faceis de ser compreendidos.

No anseio de fornecer material que siga os ideais que acima enumeramos estamos lançando gratuitamente os textos de nosso blog no formato digital. Apesar de existirem alguma obras espíritas em russo, não atendem a demanda constante dos leitores por mais informações e por vezes esses livros já existentes perdem-se com questões secundárias, como disputas por direitos autorais e outros interesses que não cabe a aqui enumerar.

Entretanto, eis nossa contribuição, um livro que esperamos atender ao anseio de conhecimento de nossos irmãos de idioma russo pela Doutrina dos Espíritos. Que essas páginas possam inspirar seus ideais e auxiliar em nossa eterna luta contra drama íntimos e sofrimentos coletivos. Não há palavra que defina melhor o papel do Espiritismo no mundo do que a FRATERNIDADE.

Rafael

link para download gratuito:

http://www.4shared.com/office/xo9_THXf/Спиритизм_в_России_2011.html

quarta-feira, 16 de maio de 2012

RAFAEL DE FIGUEIREDO LANÇA LIVRO DIGITAL (GRATUITO): TEXTOS SELECIONADOS – VOL. I

Foi-nos inspirada a ideia de selecionar alguns dos textos que publicamos no blog NAS BRUMAS DA MENTE e transformar-lhes em um pequeno livro. Sendo assim escolhemos e revisamos alguns dos textos publicados entre os anos de 2008 e 2010 para divulgá-los gratuitamente através de um livro digital. Essa obra estará disponível para download em nossa página www.nasbrumasdamente.blogspot.com de modo gratuito, entretanto, solicitamos aos leitores que não façam alterações nos textos nem os utilizem sem as devidas referências.

Esse projeto deve ter desdobramentos, pois pretendemos fazer essa seleção de textos periodicamente e reuni-los em outros volumes. Estamos também preparando o primeiro livro em russo a partir do nosso blog nesse idioma. Queremos tornar o Espiritismo acessível a todos, nos colocando dessa forma em oposição a cobrança de valores abusivos por obras de qualidade duvidosa. Estamos cumprindo com nossa obrigação, dividindo experiências e conhecimentos com nossos leitores, o que por si só já é motivo de imensa satisfação.

 

TEXTOS SELECIONADOS

Link para download gratuito:

http://www.4shared.com/office/QG_klrR9/TEXTOS_SELECIONADOS_I.html

Uma boa leitura a todos!

Rafael de Figueiredo
30 de abril de 2012.

domingo, 22 de abril de 2012

O ESPIRITISMO DEVE APROXIMAR AS RELIGIÕES

Allan Kardec, Revista Espírita de 1866/janeiro:

Nas reuniões espíritas, a prece predispõe ao recolhimento e à seriedade, condição indispensável, como se sabe, para as comunicações sérias. Significa dizer que devem ser transformadas em assembleias religiosas? De nenhum modo. O sentimento religioso não é sinônimo de sectário de uma religião; deve-se mesmo evitar o que poderia dar às reuniões esse último caráter. É nesse sentido que constantemente desaprovamos as preces e os símbolos litúrgicos de um culto qualquer. Não se deve esquecer que o Espiritismo tende para a aproximação das diversas comunhões; já não é raro ver nessas reuniões a confraternização dos representantes de diversos cultos, e é porque ninguém deve se arrogar a supremacia. Que cada um em seu particular ore como entender, é um direito de consciência; mas numa assembleia fundada sobre o princípio da caridade, deve-se abster de tudo o que poderia ferir suscetibilidades, e tender a manter um antagonismo que se deve ao contrário se esforçar em fazer desaparecer. As preces especiais ao Espiritismo não constituem, pois, um culto distinto, desde o instante em que elas não são impostas e cada um está livre para dizer aquelas que lhe convém; mas elas têm a vantagem de servir para todo mundo e de não ferir ninguém.

O mesmo princípio de tolerância e de respeito para com as convicções alheias nos faz dizer que toda pessoa razoável que as circunstâncias levam num templo, de um culto do qual não partilha as crenças, deve se abster de todo sinal exterior que poderia escandalizar os assistentes; ela deve, tem mesmo necessidade, de sacrificar aos usos de pura forma que não podem em nada empenhar sua consciência. Que Deus seja adorado num templo de maneira mais ou menos lógica, isto não é um motivo para ferir aqueles que acham essa maneira boa.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

NO CENTRO ESPÍRITA

Através dos estudos e observações tenho elaborado mentalmente o que até o momento tenho por um modelo ideal de centro espírita. Tenho presenciado tantos desvios, falta de orientação e misticismo que muitas vezes me pego entristecido por conseguir perceber que a história se repete, e o Espiritismo está tomando o rumo de uma religião instituída. E como toda religião instituída, tende ao engessamento e atraso com o passar do tempo. Não quero entrar na análise desses fatos, basta um pouco de observação para constatar o mesmo.

Do modo que entendo o centro espírita, ele deveria ser um núcleo de transformação moral, a instrução e a caridade seriam os instrumentos para essa transformação. Porém, não creio em Espiritismo sem falar de revolução a nível íntimo, mudança de comportamento. O Centro Espírita deveria manter o foco nessa questão e deixar de lado, fim dos tempos, crianças especiais e outras questões recorrentes que surgem com nova roupagem de tempos em tempos para a satisfação daqueles que exploram esses temas comercialmente, mas nada acrescentam no progresso individual. Não existe progresso sem trabalho.

O Centro Espírita deveria ser um local acolhedor, e para tanto, invariavelmente deveria ter proporções reduzidas, estimulando o intimismo e facilitando a relação entre os membros do grupo. É preciso empatia, a única forma de qualquer atividade social transcorrer com harmonia e alcançar resultados positivos com eficiência.

O primeiro aspecto na dinâmica de acolhimento dos frequentadores do centro deve ser uma explanação oral, sabemos que as pessoas não encontram espaço na sua vida atribulada para o estudo e a reflexão. A palestra, aula ou explanação, como queiram, deve esclarecer, fornecer subsídios para que o ouvinte sinta-se capaz de encontrar respostas em si mesmo. O Espiritismo deve sempre estimular a liberdade e jamais aguilhoar o frequentador a suas práticas e frequência obrigatória. A diferença de opinião é outra questão que precisa ser respeitada, pois se há aquele que pensa diferente é porque Deus assim o quis para que aprendêssemos uns com os outros, e, quando nosso companheiro estiver equivocado ter paciência e ser tolerante para com ele. Claro que tudo dentro do bom senso, não precisamos aceitar excentricidades e situações que sejam contrárias às questões mais básicas da Doutrina Espírita.

A palestra é o principal instrumento que temos para colocar todos os presentes em sintonia com os amigos espirituais, o simples fato do frequentador ter alguns minutos para a reflexão e a prece já age sobre ele como um bálsamo. E com isso fica desnecessário os procedimentos fluidoterápicos, vulgarmente reduzido ao “passe”. Atualmente as pessoas vão ao centro espírita para tomar um “passe”, mas não se dão conta que a palestra que os estimula ao bem é muito mais importante e que todos são atendidos naquele momento. Estranho que as pessoas consideram doentes aqueles que vão a farmácia e se automedicam mesmo sem doenças, são conhecidos como hipocondríacos, mas com relação ao tratamento fluidoterápico não pensam da mesma forma. É quase como a vitamina C, tomam, pois previne os problemas. Quando na verdade o que previne os problemas é a sanidade mental, a mudança de comportamento, substituindo vícios por hábitos mais saudáveis. Infelizmente continuamos com o velho conceito de mínimo esforço, supondo que os outros possam resolver nossos próprios problemas.

O que muitos centros chamam de desobssessão e praticado na presença do visitante poderia muito bem ser substituído por alguns minutos de leitura de textos específicos que estimulem a renovação moral, o perdão, a paciência ou a resignação, por exemplo. Tanto o frequentador em tratamento quanto o acompanhante espiritual estaria sendo preparado para um posterior diálogo com os orientadores espirituais, mas há quem prefira chamar a atenção com manifestações mediúnicas na frente de pessoas despreparadas ou adotar gestos que mais lembram os mágicos de outrora, alimentando uma falsa visão do Espiritismo com crenças supersticiosas e nada úteis.

Se uma pessoa chega no centro espírita exercitemos a caridade, emprestemos nosso ouvido, aconselhemos com responsabilidade se tivermos condições de fazê-lo. E se nos faltarem maiores possibilidades oremos por aqueles que chegam até nós pedindo ajuda. Precisamos aprender a assumir as responsabilidades de nossas palavras e orientações e não se esconder atrás da mediunidade. Óbvio que junto de nós haverá amigos desencarnados nos sustentando naquilo que tivermos necessidade, mas isso não nos exime do estudo e da dedicação, que se tem visto bastante distante no concernente a mediunidade. Não são poucos os “médiuns” que preferem fechar os olhos e dizer a primeira coisa que lhes veem a cabeça do que abrir um livro e refletir. O mais triste, é que as pessoas sem instrução veem isso como algo sobrenatural, capaz de lhes aliviar e como num passe de mágica mudar a vida de alguém. Nada na vida se consegue sem dedicação e trabalho.

Creio que os casos mais complexos podem ser levados a consulta mediúnica, efetuada com algum mecanismo de controle, afinal estamos tratando da vida das pessoas e não se pode ser leviano nessa questão. Se os espíritos indicarem tratamento fluidoterápico, através do emprego do magnetismo animal, que o façamos com propriedade. Estudemos o caso, sua patologia, a área orgânica que afeta, as reações que a enfermidade pode provocar, e tenhamos após o estudo um planejamento para atender ao tratamento do doente. Isso é Espiritismo, estudo, seriedade, dedicação e não simplesmente achismos e superstição.

É preciso libertar as pessoas da ignorância e como seremos capazes de fazer isso se continuamos nos portando nos centros espíritas como o fazíamos diante dos feiticeiros na idade média? São raros os lúcidos trabalhadores que compreendem que fazer parte do centro espírita não é ajudar os outros, mas uma oportunidade de aprendizado sem igual para nós mesmos. Os espíritos não estão preocupados com o atendimento dos desencarnados, somente nossa soberba para pensar que o que fazemos não possa ser substituído pelos espíritos com muito mais qualidade. O centro espírita é uma escola. A questão fundamental é se concentrar nos encarnados, naqueles que estão distantes de compreender que Deus existe dentro de cada um deles e que está lá, silencioso, porém ativo, aguardando o despertar da criatura humana para uma renovação de comportamento.

Provavelmente minhas ideias vão mudar com o tempo, eu vou aprender mais, me desenvolver e algumas das questões que aqui tratei ficarão, senão obsoletas, ao menos poderão ser substituídas por outras melhores. Entretanto, isso faz parte do processo de compreensão das diferenças que falávamos antes, é preciso dedicação, em tudo que façamos, para que não nos sintamos, mais tarde culpados, por ter realizado algo do modo mais simplório quando podíamos ter feito melhor.

L.

04/04/2012

quarta-feira, 4 de abril de 2012

OS ESPÍRITOS NÃO TEM SEXO

As almas ou Espíritos não têm sexo. As afeições que as une nada têm de carnal, e, por isto mesmo, são mais duráveis, porque são fundadas sobre uma simpatia real, e não são subordinadas às vicissitudes da matéria.

As almas se encarnam, quer dizer, revestem temporariamente um envoltório carnal semelhante para elas a um pesado invólucro do qual a morte as desembaraça. Esse envoltório material, pondo-as em relação com o mundo material, neste estado, elas concorrem para o progresso material do mundo que habitam; a atividade que são obrigadas a desdobrar, seja para a conservação da vida, seja para se proporcionarem o bem-estar, ajuda seu adiantamento intelectual e moral. A cada encarnação a alma chega mais desenvolvida; traz novas idéias e os conhecimentos adquiridos nas existências

anteriores; assim se efetua o progresso dos povos; os homens civilizados de hoje são os mesmos que viveram na Idade Média e nos tempos de barbárie, e que progrediram; aqueles que viverão nos séculos futuros serão os de hoje, mas ainda mais avançados intelectualmente e moralmente.

Os sexos não existem senão no organismo; são necessários à reprodução dos seres materiais; mas os Espíritos, sendo a criação de Deus, não se reproduzem uns pelos outros, é por isto que os sexos seriam inúteis no mundo espiritual. Os Espíritos progridem pelo trabalho que realizam e as provas que têm que suportar, como o operário em sua arte pelo trabalho que faz. Essas provas e esses trabalhos variam segundo a sua posição social. Os Espíritos devendo progredir em tudo e adquirir todos os conhecimentos, cada um é chamado a concorrer aos diversos trabalhos e a suportar os diferentes gêneros de provas; é por isto que renascem alternativamente como ricos ou pobres, senhores ou servidores, operários do pensamento ou da matéria.

Assim se encontra fundado, sobre as próprias leis da Natureza, o princípio da igualdade, uma vez que o grande da véspera pode ser o pequeno do dia de amanhã, e reciprocamente. Deste princípio decorre o da fraternidade, uma vez que, nas relações sociais, reencontramos antigos conhecimentos, e que no infeliz que nos estende a mão pode se encontrar um parente ou um amigo.

É no mesmo objetivo que os Espíritos se encarnam nos diferentes sexos; tal que foi homem poderá renascer mulher, e tal que foi mulher poderá renascer homem, afim de cumprir os deveres de cada uma dessas posições, e delas suportar as provas.

A Natureza fez o sexo feminino mais frágil do que o outro, porque os deveres que lhe incumbem não exigem uma igual força muscular e seriam mesmo incompatíveis com a rudeza masculina. Nele a delicadeza das formas e a fineza das sensações são admiravelmente apropriadas aos cuidados da maternidade. Aos homens e às mulheres são, pois, dados deveres especiais, igualmente importantes na ordem das coisas; são dois elementos que se completam um pelo outro.

O Espírito encarnado sofrendo a influência do organismo, seu caráter se modifica segundo as circunstâncias e se dobra às necessidades e aos cuidados que lhe impõem esse mesmo organismo. Essa influência não se apaga imediatamente depois da destruição do envoltório material, do mesmo modo que não se perdem instantaneamente os gostos e os hábitos terrestres; depois, pode ocorrer que o Espírito percorra uma série de existências num mesmo sexo, o que faz que, durante muito tempo, ele possa conservar, no estado de Espírito, o caráter de homem ou de mulher do qual a marca permaneceu nele. Não é senão o que ocorre a um certo grau de adiantamento e de desmaterialização que a influência da matéria se apaga completamente, e com ela o caráter dos sexos. Aqueles que se apresentam a nós como homens ou como mulheres, é para lembrar a existência na qual nós os conhecemos.

Se essa influência repercute da vida corpórea à vida espiritual, ocorre o mesmo quando o Espírito passa da vida espiritual à vida corpórea. Numa nova encarnação, ele trará o caráter e as inclinações que tinha como Espírito; se for avançado, fará um homem avançado; se for atrasado, fará um homem atrasado. Mudando desexo, poderá, pois, sob essa impressão e em sua nova encarnação, conservar os gostos, as tendências e o caráter inerentes ao sexo que acaba de deixar. Assim se explicam certas anomalias aparentes que se notam no caráter de certos homens e de certas mulheres.

Não existe, pois, diferença entre o homem e a mulher senão no organismo material que se aniquila na morte do corpo; mas quanto ao Espírito, à alma, ao ser essencial, imperecível, ela não existe uma vez que não há duas espécies de alma; assim o quis Deus, em sua justiça, para todas as suas criaturas; dando a todas um mesmo princípio, fundou a verdadeira igualdade; a desigualdade não existe senão temporariamente no grau de adiantamento; mas todas têm o direito ao mesmo destino, ao qual cada um chega pelo seu trabalho, porque Deus nisso não favoreceu ninguém às expensas dos outros.

Allan Kardec, Revista Espírita 1866.